A bela noite do Milton

Fecho o porta e agarro o pijama. Milton, sem me olhar, passa pela porta que acabo de trancar, abre, dá buenas noches e sai.

Milton trabalha de madrugada num bar aonde rola uma balada.

“Aquilo não uma festa, é uma pocilga”. Refere-se assim às centenas de pessoas, a maioria com algum dinheiro para gastar e sem nenhuma vergonha de ficar bêbados.

Ele odeia servir gente. Na altura da madrugada a educação dos festeiros que já era comprometida, fica por conta da paciência dele. “É foda”. E prepara drinques, abre monte de latinhas de cervejas. Ele não faz isso pela grana, nem pelo gosto pela naiti, nem sequer pelas mulheres que por lá abundam oferecidas ao som das batidas, apenas prontas para serem escolhidas dentre a matilha de xoxotas.

A maioria o olha e o acha um velho passado de moda, birrento e preguiçoso. O Milton nessas madrugadas não passa de um aproveitador do álcool à vontade. Serve doses que repete só para ele, e prepara para ele as melhores e mais caprichadas caipirinhas.  Aquela parcimônia que lhe envolve quando deixa os pedidos de lado para se presentear com alguma música que ele adora, e arrisca cantar enquanto bebe de um copo que tinha ali de ladinho. Seus colegas de oficio ficam olhando pra ele com um sorriso que não passa nem da lástima.

Durante a festa algo vá morrendo nele a cada música que começa.

O que mais lhe surpreende e descobrir alguma paixão entre um pedido e o instante no qual coloca o copo cheio na mão de uma dessas meninas. Iludido, aguarda outro momento para olhar nos olhos da moça assim que ela volte a pedir outra bebida. Só que o arraso causado pelo álcool vá desfazendo todo aquele mistério que há no silêncio do flerte, e a sortuda da noite, se apresenta cada vez em pior estado. “Que estrago” grita ele, só para não gritar “que nojo.”

Quando chega o sol do domingo, Milton arruma seus utensílios, conta a bebida sobrando e vá até o caixa pela merreca que lhe corresponde. Conta e reconta aquelas cédulas para ver se na conta, por erro ou acerto, aquele dinheiro se multiplica. Nunca dá certo.

Dá um jeito de pegar um último, o mais feliz, drinque; e sai sem se despedir de ninguém como se desta vez fosse ele quem não suportasse mais sua própria vergonha.

Quando ele chega a casa, lá estou eu preparando meu cafezinho, ansioso por ver o sol lá no quintal. Milton passa e põem el dinerito na minha mão e se joga nos lençóis.

Pediu só para colocar nas nossas compras uma manteiga da melhor qualidade e um desses chás bons para dormir.

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