Milton ronca e ele não sabe

Hoje faz frio. Nas noites de inverno Milton não para quieto. Parece que tudo lhe incomoda. Troca os canais da televisão. Troca de meias, de sapatos. Troca até de pão. “Coloca um pouquinho de manteiga neste, por favor” me pede.

Hoje o nosso filho dormiu aqui. Mas sou eu quem cuida dele, quem o mima e quem o alimenta.

Ele aproveita para solucionar o sodoku do jornal que entregam de graça nos faróis.  Tira a caca do nariz e cola-a na cadeira. Não se intimida com o que possam pensar dele por esse pequeno ato. Na real, nada que possam pensar dele lhe interessa.

Ele diz que vai dar uma volta. Puxa uma garrafa de cachaça e serve um gole num copo. Engole. Depois vai ao jardim, arruma umas folhas de hortelã, põem açúcar, macera, agrega gelo e mais cachaça. Não há melhor mojito que o dele (incluso si el ron cubano original acabó).

Esse é o primeiro de uma sequência que não tem fim. Rola umas caipirinhas. Rola shot com limão. Rola com coca e gelo, famosinha Cuba Libre. Rola um copo quebrado, rasgando uma ferida em pele exposta. Rola de eu deixar de lhe aceitar os drinques, única proposta que acho viável.

Antes que o nosso filho durma, é ele quem deita-se do lado dele e conta histórias. Nas noites inspiradas, Milton, desliga a luz e conta uma história que inventa na hora. São histórias sem pés nem cabeça, como a própria vida do seu contador.

Na parede, desenhadas silhuetes, demoram-se em apagar com o sono.  Eu vejo ele deitado, roncando do lado do pequeno e o livro aberto numa página que se lê: “Era una vez…”.

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