Londres… longe demais

Eu sempre quis conhecer Londres desde criança.

Pergunta como eu, nascido em Cuba tinha como sonho conhecer esse país conhecido como frio, berço do capitalismo moderno, tão diferente da minha ilha?

Eu não me lembro de como tive essa consciência, mas desde que eu tenho lembranças meu pai, Jose Ramón, trabalhava para a embaixada do Reino Unido em La Habana. Desde sempre me recordo desse fato, isso porque ele começara trabalhar lá uns poucos anos antes de eu nascer. Entre coisa e outra, aquele país com nome forte cruzava as conversas entre ele e minha mãe.

Em casa sempre teve, diferente das casas dos meus amigos de bairro, uma revista ou jornal em inglês. Alias, de ali provavelmente começara aquele desejo, impulsionado pelas imagens dos carrões que mostravam as propagandas. Os jornais eram gigantes, com muitas páginas coloridas, bem diferentes do Granma ou Bohemia que circulavam em Cuba.

Fui crescendo e meu pai, aos sábados, me levava para acompanhá-lo. Eu devia me portar extremadamente bem, pois aquelas pessoas, los jefes, eram pessoas supostamente muitas estritas, vindos de outro lugar, com uma cultura completamente diferente da nossa e muito sérios. Era a cartilha antes de irmos a atravessar a cidade. E eu a cumpria honrosamente, sem tocar nada, observava cada detalhe daqueles lugares que eram completamente diferentes de tudo que existia na minha casa, no meu bairro, na minha vida.

Cresci entre conversas em inglês, jornais em inglês, festas de natal (na Cuba revolucionaria,  até a vinda do Papa João Paulo II eram praticamente raras) no estilo inglês, presentes e até roupas diferentes de todos meus colegas de escola.

A verdade, meu pai ganhava muito bem se comparado aos salários do resto de qualquer das famílias dos meus amigos. E isso refletia, sobretudo, na comida, da qual meu pai sempre dizia “no puede faltarnos nada en casa”.

Na época, em Cuba, aqueles que trabalhavam para estrangeiros recebiam uma moeda que intermediava os câmbios entre os dólares que os consulados pagavam aos seus funcionários e que somente poderia se usar em determinados estabelecimentos. Eram chamados de chavitos (olha que naquele tempo o Chávez nem era conhecido) e me lembro que funcionava como espécie de talão de cheque.

Esse fato me diferenciava, quisesse ou não, do resto dos meus amigos de infância e terminava reverberando nas minhas relações porque de fato minha família tinha acesso a muitas mais oportunidades que a maioria das famílias,  daquelas que não tinham alguém que trabalhasse com estrangeiros.

Em 1990, durante a Copa do Mundo na Itália, na sempre ausência da Seleção de Cuba, eu não tive dúvida em escolher a Seleção inglesa como minha favorita. Naquele ano Paul Gascoigne e Gary Lineker me levaram até as semi-finais e por muitos anos, foi meu time favorito.

Depois o inglês ficou fácil. Entre a escola e as conversas com Alain, um de meus melhores amigos, fomos construindo um universo aparte em english. Diálogos intermináveis atravessavam a cidade, decifrando aquela língua diferente.

Londres no está lejosassim chamei um de meus contos que publiquei depois no meu primeiro livro “Cómo le crecen los senos a las niñas?”. É uma história sombria, de um casalzinho teenager que em plena angustia, ela tenta se suicidar. Ele para trazê-la de volta, lhe inventa uma Londres em plena cidade de La Habana. Era minha fantasia voando solta no Caribe, ainda muito cruel e menos esperançosa do que hoje, e o moleque depois de convencê-la, é ele quem se joga janela abaixo.

Depois eu fiquei como quem diz “mais grande”. Meu espírito ficou leve e sincero, e recuperado daquela formação britânica tive a certeza de que meu coração era latino, minha essência latino-americana, minha vontade permaneceria deste lado do Atlántico, entre Yukon e Ushuaia.

A vida me trouxe para dentro do continente, me deu um coração brasileiro, um filho das Américas.

Minhas músicas, meus livros, meus filmes foram todos gestados neste pedaço gigante de terra.

Mas ontem, feito pesadelo ou proposta, apareceu aquela cidade do “nunca-jamais” para me tirar o sono. E como não gostei do sonho, acordei para escrever isto.

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