Cuando eu era militar… (Previa)

Em agosto de 1999, quando ainda não tinha virado o século – nem o milênio – eu entrei no Servicio Militar. Em Cuba, o Serviço é obrigatório. Na minha época, era de dois anos para quem não fosse cursar nível superior. A partir daquele 16 de agosto, eu ficaria por dois anos todos prestando às Fuerzas Armadas Revolucionárias.

Quando rolou a inscrição, meses antes, eu consegui ser registrado para UM-2666 ou Batalhão PCAEM – única unidade de Proteção contra Armas de Extermínio Massivo do Exército Ocidental. Nessa unidade um primo meu era Oficial de Técnica, ou seja, estaria próximo de  alguém com alto rango. Uma sorte… e certas regalias.

A primeira fase – La previa – seria num regime fechado de três meses sem sair da Unidade. Era o período mais puxado. Tendo que fazer uma exaustiva preparação física, outro tanto de conhecimento militar geral, orientação de dia e noite, noções básicas de luta corpo-a-corpo, tiro com armas de fogo, preparação de primeiros auxílios médicos, sobrevivência no campo. Assim como hierarquia militar, postura, marchas, conhecimento em comunicação em tempo de guerra. Incluía ordens de mandato por parte de oficiais, suboficiais e outros soldados mais velhos. Além de trabalhos forçados para manter a limpeza e ordem da Unidade Militar em geral. Também fazia plantão de 24 horas no quartel, duas à três vezes por semana, com fuzil AK-47 e 120 munições, facão e mais dois outros soldados.

Segundo fontes extraoficiais Cuba é um dois países com maior número de efetivos militares, isso devido ao conceito militar cubano batizado de “Guerra de todo el Pueblo” onde quase toda a população tem um “puesto de combate”, tanto na guerra regular como na retaguarda e logística militar. Isso naqueles anos antes do milênio.

Durante esses primeiros meses, recebi visitas de meus familiares de quinze em quinze dias. Eles podiam trazer comida e bebida que não poderia entrar nos dormitórios. Com eles vinha, minha namorada que podia no máximo, ficarmos afastados da área para visitas. Durante os domingos, rolava um som ambiente, com músicas e as chamadas dos oficiais do começo e fim do tempo de visita.

Do meu pai, desde criança, sempre escutei muitas histórias de quando ele fez três anos de Servicio na Base Aérea de San Antonio de los Baños, sendo mecânico de voo dos MiGs – os cazas russos que eram parte da Força Aérea Cubana. Tinha histórias dos que se davam um tiro para ganhar a baixa médica. Dos que eram pegos fugindo do horário de serviço. Das filha-de-putiçe dos oficiais. Tinha aquela história onde ele era pego dormindo no plantão noturno por um desses oficiais, há menos de uma semana de cumprir os três anos, e julgado militarmente para cumprir mais um ano de serviço.

Ao fim de tarde, quase sempre eu chorava. Uma tristeza que cabia numa despedida e que inevitavelmente eu teria que segurar a onda, por muito, mas muito mais tempo.

Eu lembro que até a noite antes de ser fardado, meus amigos, meus pais e minha namorada ficamos quase o tempo todo. No meio da madrugada eu entrei no banheiro e pela primeira vez tirei o meu bigode – na época não tinha barba. De frente ao espelho, aquele ato e eu mesmo, me parecera ridículo.

Eu desconhecia, ainda então, que seriam os dois anos mais vazios da minha vida. Tinha recebido de presente a solidão dos militares que ajoelham-se diante de um manifesto e uma conduta.

Dalí, dessas noites e solilóquios, nasceram os primeiros cadernos riscados de poesia para formigas. Nasceu o poeta que escondia de lugar em lugar folhas rimadas, sem títulos, nem utopias. Eram confissões do amor celeste, estrelado. Do cortejo do prazer de um só corpo. Do cansaço. Do rancor poluído trás silêncios e silêncios por outras pessoas e outras mortes.

Não existe VIDA sem mortes, sem fantasmas, sem penúrias.

E se eu vivi com culpa daqueles anos, este caminho parecia não ter volta… caminho eterno e POESIA.

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