Eu já vi o Papa em Cuba

Eu já vi um papa. Na época era o Juan Pablo II.

No ano 1998 quando o Papa esteve em Cuba. O pais não teve como não se mexer com a presença dele.

O Estado Cubano desde sua pose militar no 1º de janeiro de 1959 se posicionou contra a Igreja. Na real, a pose do Fidel Castro que veio anos depois, foi contra qualquer uma das religiões, sobretudo em cargos políticos, públicos ou administrativos.

Pessoas comuns, trabalhadores e funcionários também eram aliciados a não reconhecer suas crenças religiosas temorosas de perder seus empregos. Altares, medalhinhas, pingentes, oferendas eram secretamente ocultas de olhos alheios.

Quando o Papa desceu no aeroporto em janeiro do 98, meus amigos e eu corremos até uma avenida que ele passaria no papamóvel. Ao longo da larga avenida que liga o aeroporto ao Centro da cidade uma multidão de cubanos tínhamos se juntado.

Depois de quase quarenta anos de perseguições da inquisição socialista, crentes fidel y el papade todas as religiões estavam de mãos dadas por aquele gesto episcopal. Fidel foi receber o rei de ouros do Vaticano e apertou a mão, de homem para homem. Mas aquilo era a mão branca, endinheirada à custa dos plebeus e vítimas da igreja católica e a mão vermelha, ensanguentada, do líder comunista cubano.

Certo era que eu cresci entre pessoas que mantinham sua religiosidade bem escondidinha. Minha mãe de família evangélica. Meu pai agnóstico de família católica. Eu, desde sempre, perseguidor da felicidade em todo canto, fui batizado na Igreja Católica; e abençoado em festas Yorubá e filho da mãe Oshún; e o suficientemente eu, como para não acreditar, até então, em nenhuma dessas religiões – eu também sem preconceito algum. Minha irmã batizada encontrou-se no espiritismo e frequentou festas de Santería. Minha prima Yami, fez “santo” e fazia nos anos noventa tambores e festas em casa, onde se dançava e comia demais.

O Papá fez missa em várias cidades de Cuba. Sacramentou à Virgen de la Caridad del Cobre , a padroeira de Cuba, sincrética de Oshún no Yorubá cubano. Em cada um dos atos, compareceram milhões de pessoas “saídas do armário” religioso. Ainda, a pedido do Juan Pablo, constituiu-se o dia do nascimento de Jesus Cristo em feriado nacional, isso em plena ilha comunista.

Significava aquilo uma abertura política do tal regime Castro? Era mais uma jogada do craque das relações públicas do governo cubano?

O fato foi que quando o Papa passou pela Av. Rancho Boyeros eu estava lá. “A gente” tinha um monte de bandeirinhas cubanas de papel e a fazíamos ondear com orgulho. Ele passou num súbito segundo, de tarde nublada. E eu, eu não me lembro dele.

No domingo daquela semana, na missa proferida na mesma Plaza de la Revolución onde Fidel proclama seus discursos, o Papa falou para mais de dois milhões de cubanos. Eu, entre bandeirinhas e brincadeiras, puxe uns binóculos comuns e consegui lhe ver a bata branca, e a mãozinha fazendo o sinal da cruz: abençoando-me!

¡Amén!

ps. O Papa Benedicto XVI esteve na ilha em março de 2012. 

Anuncios

Un pensamiento en “Eu já vi o Papa em Cuba

  1. Pingback: Londres… longe demais | ENTRE 2 LINGUAS

Responder

Introduce tus datos o haz clic en un icono para iniciar sesión:

Logo de WordPress.com

Estás comentando usando tu cuenta de WordPress.com. Cerrar sesión / Cambiar )

Imagen de Twitter

Estás comentando usando tu cuenta de Twitter. Cerrar sesión / Cambiar )

Foto de Facebook

Estás comentando usando tu cuenta de Facebook. Cerrar sesión / Cambiar )

Google+ photo

Estás comentando usando tu cuenta de Google+. Cerrar sesión / Cambiar )

Conectando a %s