Café forte em xícara pequena

Abro a porta de grade de um corridor, destravada, entro e perto da próxima porta, chamo pelo nome.

Familiaaa…” – abre-se a janela e aparece Ania. Surpresa. Destrava a porta e no encontro el abrazo.

Ania, é cubana. Mora no Brasil há uns anos. Somos amigos nessa confiança da “insularidad”, termo que caracteriza poeticamente quem nasce, vive ou morre numa ilha. Atravessamos a casa no silêncio e a magia de uma casa de artistas.

Depois de uns minutos, uma ligação de outro cubano “volao vem pa´ca…” e ela o convida para chegar.

Perguntamos-nos pelos nossos filhos, Samuca e Benjuki, (a versão carinhosa de um mangá cubano-paulistanêis) e planejamos um encontro que teimamos em postergar.

Temos há tempos uma ideia que beira a utopia de fazermos algum projeto com esta identidade bipolar, ilhadamente continente, que sobrevive ao desapego de uma identidade anterior, vinda de outro país, uma espécie de árvore imensa, de galhos escuros e raízes inchadas no fundo do mundo e que flutuou no tempo até se firmar neste outro pedaço de mundo, crescente no sentido presente de ser e viver, nesta terra que abre os braços, e colhe os filhos, e os vê crescer.

Todo a su tiempo” Ania me acalma. Aquilo que chamam de sexto sentido parece convencer.

Me despido e chegando naquela primeira porta, destravada do começo, aparece o outro amigo cubano. Yaniel es músico, toca e canta com a rara sutileza de quem é de Santiago de Cuba.

O acaso poético me convida voltar atrás.

Voy a hacer um café” e voltamos os três até a cozinha. Dois minutos depois estamos os três falando dessa sensação palpitante de algo que “ya no está más”, e que foi, ou ficou para trás: Cuba. As lembranças nos levam de volta naquele espaço-tempo que deixamos, numa espécie de triste alegria, que nos abraça nesta felicidade maior: É ESTE VIVER.

O café em Cuba, servido em pequeníssimas xícaras, fortemente adocicado sempre foi o pretexto para amarrar o encontro, quase sempre nas cozinhas, esperávamos  que quem estivessem fazendo colocasse el poquito de café que nos correspondia. Era um instante corriqueiro, cotidiano mas sublime, roçando o divino.

Assim era em Cuba e assim me pareceu hoje.

Essa ponte estabelecida no fato de estar juntos num lugar comum, distante de outro lugar comum, nos fazia mais próximos do que nunca de nós mesmos. Algo assim como assistir um filme com outras pessoas e depois sentar para conversar sobre o que aconteceu.

Era algo simples, cotidiano e corriqueiro como um café, porém sublime, beirando o sublime.

Chegam Samuca e Kike e naquilo só faltou um dominó, um musiquinha bem alto, um rum, e de um danzón. Era a transposição poética de um passado inexistente, possível, e real no presente. Partilhamos algumas memórias, os amigos comuns, os planos sobre ese PUENTE que precisa ser levantado. Os filhos de este novo país que cresce no peito e na consciência nossa de sobre vencer. A constatação de uma natureza transumante, individual em cada percepção, sobre este ser que abandonamos num corpo que partiu de outro território, humano e temporal. As devidas nuances. Os tons. As afirmações,  contradições e negações de cada um. As mortes, passadas e futuras.

Depois saímos juntos pela mesma calçada e o sol. Ao principio numa mesma direção: era o leste. Em pouco mais que uns quarteirões, cada um tinha pegado seu rumo. Eu resolvi escrever.

Anuncios

Un pensamiento en “Café forte em xícara pequena

Responder

Introduce tus datos o haz clic en un icono para iniciar sesión:

Logo de WordPress.com

Estás comentando usando tu cuenta de WordPress.com. Cerrar sesión / Cambiar )

Imagen de Twitter

Estás comentando usando tu cuenta de Twitter. Cerrar sesión / Cambiar )

Foto de Facebook

Estás comentando usando tu cuenta de Facebook. Cerrar sesión / Cambiar )

Google+ photo

Estás comentando usando tu cuenta de Google+. Cerrar sesión / Cambiar )

Conectando a %s