Camêra hiperbárica e a saúde em Cuba

Eu nasci com uma deficiência crônica respiratória. Uma asma letal que aos seis meses de idade me jogou numa câmara hiperbárica. Eu não me lembro disso, óbvio, mas mi madre fez questão de eu nunca nunca olvidar daquilo.

Até a primeira dúzia de anos, tenho consciência de ser internado por causa desse problemita respiratório ao menos uma ou duas vezes por ano. Tenho memória de uma longa série de filas nos prontos socorros dos Hospitais Pediátricos William Soler e Pedro Borrás, enquanto esperava ser atendido pelo médico de plantão. Tinham virado costume aquelas salas brancas de pé direito altíssimas, com cartazes de saúde coletiva e desenhos para crianças.

Lembro-me de salinhas pequenas sem adereços, os mesmos procedimentos para determinar o risco da crisis asmática do momento. Recordo que tudo num hospital é frio, inevitavelmente frio: as cadeiras de metal, a bancada onde me deitava, a mão do doutor ou da doutora, o receituário com o remédio indicado.

Depois na enfermaria, tomava um aerossol com salbutamol para poder respirar melhor. Às vezes eu voltava para casa. Às vezes ficava lá por uma semana.

Quem imagina quando se fala de saúde em Cuba, hospitais sem filas no corredor, ambulâncias muito modernas e equipamentos altamente sofisticados, participa de um sonho coletivo, uma espécie de paraíso celestial como o dos crentes.

A sacada daqueles anos todos de Revolución, foi disponibilizar para todos ou quase todos, o acesso a hospitais que anos antes eram de acceso retricto aos poucos que pagavam.

Eu e minha família, num outro qualquer país do mundo é bem provável que não tivéssemos como pagar por tudo aquilo que eu passei por causa da asma.

Hospital Pedro Borrás Astorga, mais de 20 anos para uma restauração que não acaba.

Hospital Pedro Borrás Astorga, mais de 20 anos para uma restauração que não acaba. (Foto. Cubanet)

Anos depois, à altura da minha melhor adolescência, eu consegui vaga numa escola interna especializada em tratamento de asma e diabetes em crianças e adolescentes. O lugar onde finalmente, eu dei um “tchauzinho” a toda parafernália hospitalar, e me acostumbré a lidar com minha respiração descontrolada. Foram dois anos no meio do que se chamou Período Especial, a crise econômica cubana depois que os soviéticos deram um tchauzinho às ideologias socialistas.

Para alguns – berços de plata quemada – que nasceram num país como este Brasil nuestro, esses detalhes de uma saúde ao alcance de todos tendem a desacreditar, desmentir e até criticar duramente o que na Isla, os cubanos como eu vivemos.

Adulto, livre do perigo primário de morte por asma, me afastei da vida dentro dos hospitais. Cresci nos critérios e nas cobranças. Percebi onde carecia, onde faltava, onde falhava toda aquela construção de um país com saúde de alto desempenho.

Os ambulatórios de atendimento primário, conhecidas Casas del médico de la familia, fechadas. Policlínicas sem especialistas e aparelhos de diagnósticos quebrados. Carência de serviços, filas intermináveis, epidemias e falta de médicos. O Pediátrico Pedro Borrás, onde eu me tratava, tardou quase 15 anos em reabrir suas portas. Farmácias sem reposição de remédios, ou ausência deles. Os médicos, pela dificuldade financeira, caiam facilmente na corrupção, pagos por serviços ou dinheiro de pessoas de quem podia ajudá-los.

Eu e minha geração, ficamos esperando o melhor que tinha sido prometido junto com a propaganda política do governo socialista de Fidel Castro. Não era o básico, que nosotros pedíamos e aguardávamos. O país todo tinha ficado na ilusão de ao menos ter um atendimento em saúde à altura dos países mais desenvolvidos.

Vinte e sete anos depois daquela primeira câmera hiperbárica, no adeus ao meu país no aeroporto de La Habana, um quê de divida estava paga. Eu, simples e de família simples, estava vivo graças a tudo que a medicina cubana tinham me oferecido. Eu, cidadão do mundo e esperançoso da espécie humana, esperava que tudo aquilo fosse mesmo melhor naquela ilha da qual eu me separava.

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