Raras maneiras de me sentir em Cuba (e um cabo submerso)

Já se imaginou Brasil meu, vivendo neste mundo moderno sem internet? Já pensou, sem nosso federal “ponto com ponto br”? Sem seus acesos a redes sociais, suas contas onlines ou aquele filminho básico no youtube? Já se imaginou sem ler Entre 2 Línguas? (que exagero!)

Quem nasceu em Cuba tem “um” que a mais nesse árduo treinamento contra um mundo aonde necessidades suprem outras necessidades. Vivi 27 anos sem internet e ainda hoje, pouco mais de 11 milhões de cubanos vivem sem esse recurso tão importante da comunicação e os negócios.

“Não é possível”, dirão uns.

Pois é, internet em Cuba se limita a velocidades ultrabaixas de transferência de dados numa rede interna que obviamente é controlada e vigiada pela Seguridad del Estado. Edifícios públicos, universidades, centros ligados à pesquisa médica ou técnica, alguns poucos centros culturais servem de ponto de acesso a um mundo afastado a megabytes de distancias com conexões discadas e instáveis. A interfase do poderoso google  demora mais do que passar um café para os seus convidados.  Hotéis e um que outro cybercafé, exibem com luxo seus 256 Kbps e cobram pouco mais de 6 pesos conversíveis cubanos (CUC) por hora se você quiser se usufruir do seus serviços.

Já o endereço eletrônico termina parecendo mesmo uma piada: PONTO COM PONTO CU. Um “cú” mesmo.  Uma grande bosta.

Essa internet é conhecida como INTRANET, ou seja, uma conexão interna, fraca, sem liberdade de pesquisa, seja pela pouca qualidade do serviço seja pela censura de acesso a sites internacionais.

Essa pouquíssima relação com internet me faz quase um aleijado virtual. Uma relação de vítima do mundo atual. Eu, e meus onze milhões de conterrâneos nascidos e criados nos últimos anos na ilha.

Ter internet – ou mesmo Intranet – te faz uma pessoa querida, visitada, potencialmente poderosa. Os amigos ou amores ou tua família, fará comuns suas visitas na sua casa, ou mesmo, no seu emprego com o supremo objetivo de dar aquela “revisadinha” no gmail, escrever nem que seja uma frase na sua linha do tempo facebokiano, quem sabe fazer uma pesquisa de como viver num outro país, quanto mais resolver algo relacionado ao seu mestrado ou ao trabalho de curso de um de teus priminhos.

Eu criei minha primeira conta de correio eletrônico no ano de 2002 ou 2003. Era um yahoo que demorava no mínimo meia hora em abrir a interfase. Era meu nascimento virtual: dmisrock@yahoo.es. Assim troquei minhas primeiras mensagens com universitários norte-americanos que conhecera num intercambio de escritores em La Habana. Assim escrevi minhas primeiras paqueras virtuais. Assim, depois do arcodecello@gmail.com, me mantive em contato com a Natalia depois que nós conhecêramos numa tarde habanera e até que nós voltamos encontrar um ano depois.

Anos depois, eu já morando no Brasil e os meus pais ainda em Cuba, passávamos longas temporadas sem podermos comunicar via web. Minha mãe pouco acostumada com essa situação foi quem mais sofreu até que meu pai decidiu pagar uma “cuenta”. Isto é, pagar para alguém que tendo autorização de instituições, conseguia colocar um ponto de acesso na sua casa. A taxa correspondia a uma porcentagem do tempo total de acesso que o dono da conta possuía e com o qual, meus pais, poderiam ler e escrever correios eletrônicos, receber as fotos do seu filho na sua nova pátria e sua nova família. Se a irregularidade era descoberta o dono da “cuenta” perdia-a e ainda poderia ser reprendido pela a empresa que o empregava.

Até hoje se escuta a lenda de um tal cabo de fibra ótica submerso que vindo da Venezuela – na era Chávez – traria finalmente a liberdade virtual à ilha (isso considerando que o problema de internet é que os Estados Unidos bloqueiam o acesso). Até hoje não sei qual é a real desse cabo, porque de fato não teve em Cuba nenhuma mudança que permita aos meus pais ou qualquer outro cubano comum de acessar a internet livremente.

Nas últimas semanas tenho me sentido em Cuba. Nem o calor nem a censura política exatamente foram as causas dessa sensação. Depois que a Mari, que dividia o cafofo comigo, saiu de casa, o dono do imóvel – um quartinho num cortiço na Vila Gomes – ele tirou o wi-fi. Sem grana para novos contratos, à espera de mudar de novo fiquei sem o sagrado contato virtual. Treinado às antigas, virei usurpador de redes, minutos roubados de conversas reais para me conectar no virtual. Deixei um pouco de lado este blog. Minha mãe de novo se preocupou. Mas fazer o que, o jeito mesmo é viver. BEM VIVER…

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