De reformas migratorias (e do orgulho de ser cubano).

Na tevé a imprensa notícia as novas políticas migratórias cubanas; pela internet, pequenas notas, crónicas cubanas de todo o mundo e em todas as línguas rescrevem, reeditam a realidade.

Nos fatos um DETALHE muda: uma permissão de saída que era emitido pelas autoridades cubanas para poder viajar fora da ilha. Nesse detalhe era onde se administrava quem poderia ou não sair, um dos reais poderes do governo sobre seus cidadãos.

Eu não fugi da ilha. Ou sim. Perpassei a porta que se me abrira na busca de um eu perdido na floresta concreta paulistana. Um amor à deriva que flutuava entre prédios, viadutos e o trânsito. Detive-me na faixa, a luz mudou para o green. Desandei.

Meu passaporte fora feito dias antes da minha primeira viagem ao exterior. Um intercâmbio na Dinamarca, país dito europeio, lá pelo 2006. Integrante de uma ONG Cubana, Asociación Hermanos Saíz, foi através deles que fiz todo o meu papeleo. Em Cuba existem pouquíssimas ONGs por razões obvias à natureza política de aquele país, mas elas existem para além dos absurdos e outras, para além da vontade do governo cubano.

Na ilha, as filas de interessados em tirar o passaporte com as novas medidas vão ser manchete, e tal vez, os mesmos não terão que enfrentar o frio na barriga de ver seu processo negado por causa de um papel que em qualquer principio humano é um tolice. Entre eles haverá a cumplicidade de serem os primeiros beneficiados depois de uma secessão familiar que dura há muitos anos.

Do outro lado da bancada, os que carimbam com cara fechada, cães felizes do governo, acreditam ser a ponta de lança de um sistema invulnerável e sadio da evolução humana e se acham que salvam o país de escorias que não aguentaram a pressão de ser o único país dito comunista das Américas. Depois, na culpa, recebem de presente chocolates ou sucos, às escondidas dos seus chefes, quando mais aceitam alguma grana por fazer aquilo para o qual lhes pagam. A inteligência treme e certa ética balança.

Aquele mesmo passaporte entraria no Consulado Brasileiro numa rua do centro histórico habanero menos de um ano depois. A mãe do meu filho e eu tínhamos feito sentencia no destino, algo para acontecer.

Eu viria pro Brasil. Aprenderia o português.

Nos aeroportos haverá mais despedidas esperançosas de se tornar um cubano de mais perspectivas. Outra família se separa depois da linha amarela. Outra família se encontra num outro lugar. O sonho não é só americano. O sonho de todos é de objeto, luxo, pódio e poupança. Disso, o Brasil bem sabe.

Detrás da bancada, os segurosos encarregados de todo saber ou averiguar, terão a responsabilidade de deixar partir. Olham os registros, os B.O., acompanhamento detalhado do comportamento do individuo no Comité, pagamento das alíquotas governamentais, parecer do chefe empregador, não matou ninguém, não foi pego em atividades ilícitas ou de caráter dissidente.

Até o novo passaporte vai dar trabalho, aposto. Começando porque os preços do tal novo documento liberado vai custar o valor de quatro a cinco salários médios cubanos.

Novamente haverá um chutão nas cotações da Western Union. Vindo das fronteiras o sobrante das contas e pequenos luxos dos cubanos emigrados aparecerão como sustento das opulências dos governantes cubanos.

Nas filas de Imigração, os sorrisos espalhados e espelhados quebraram os recordes Guiness do povo mais feliz do mundo.

Entretanto perceber que o mundo é maior do que uma ilha que sobrevive a furações e a ascensão dos oceanos deixa atordoado até o mais malandro.

Na testa, todo cubano tem um que de orgulho. Haver sobrevivido à fome. Aos descasos sociais de último século. A vida sem internet. Aos desígnios do marxismo-leninismo. Às vontades da dinastia Castro. Ao derrube do comunismo soviético. Ao bloqueio norte-americano. Às despedidas mortíferas do aeroporto. À colonização, à neorrepública, à revolução, e a última ditadura.

E continuar vivos.

E tentando ser felizes.

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