Girando a garrafa

A garrafa da voltas rápidas num giro sem fim no centro do círculo de adolescentes. É uma sequencia desenhada com luzes e músicas cor neon. A impaciência paira. O flerte detém-se no olho aberto de quem será escolhido.

São quase quinze corpos dispostos ao prazer do acaso. Ponta-garrafa determina o alvo: boca estremece, a vítima cala, olhos se fecham. Fundo-desejo escolhe a trama: algoritmo da vontade traduzida ante o júri popular.

De mãos dadas, os últimos apaixonados, se despedem. Olho minha alma se partir em dois, e das veias espirra-se o sumo da liberdade, aquele desejo de morder qualquer vestígio de moralidade.

Sou o começo e o fim de um círculo de corpos latejantes.  O viril ereto. A pele suave, molhada, ao ponto de escorregar em mim.

A garrafa no centro gira.

O último que se atreveu a dar sentencia, puxou os cabelos da loirinha oxigenada, e enquanto o grito de prazer-dor escalava a garganta, lhe afundou a língua entre os dentes e mordeu os lábios quase até o sangue pular. No agarre, apertou-a no abraço de quem parecia, algum dia, iriam-se casar.

A rotação acaba.

Do lado fundo-da-vontade, a mocinha, ainda virgem, lhe surge à ideia de querer beijar pela primeira vez outra mulher. No oposto, entre a contradição e o obvio, quem se gaba de arroxo treme ante o veredito de quem irá a beijar. No deleite, os homens, aquele mamífero pseudocivilizado, sorriem diante o fetiche. Uma janela aberta na realidade, fechada por dentro e por fora dos medos, cruza de mãos no chão até o outro vértice da circunferência, e como quem não quer ter responsa daquilo tudo, abre a boca e engole sua primeira vitima carne-humana, sexo frágil, semelhante delicia.

Eu babo, do fim ao começo, sentado no círculo de pseudocivilizados. Giro a garrafa, e no relance, revejo a minha outra parte da alma morrendo por dentro – por fora já enterro – nas cinzas das vontades dela. Descubro meu potencial alvo, pois sou só desejo por aquele corpo de cabelos longos, pretos, olhos puxados e roupas coladas do tornozelo à traqueia.

O tempo se para. A música neon ilumina o instante, e a garrafa, fora do controle do universo, me obedece e afunda-se na minha realidade e aponta do outro lado a musa daquelas luzes todas, da festa-roda, dos homens babando, das meninas segurando a inveja daquele corpo-lycra, da minha outra metade esbravejando uma ameaça.

Eu sou o começo e fim das minhas vontades. Daí que eu parto, meio mãos meio medo, e desenrosco a tampa da garrafa. A morena, perto dos quinze outonos, salivia os meus futuros lábios, a minha futura língua, e me convida com um pisco. Entre mim e ela, o júri popular clama, e eu, que me despeço do real e do universo, coloco a tampa no tornozelo esquerdo do corpo-lycra. O vulcão arrota entre minhas pernas. E descubro nos meus cúmplices canalhas a medida exata do tesão que começa a subir por dentre a roupa-pele, a tampinha e os meus dedos.

Sou começo e fim daquilo único que sou e existo. Eu e aquela outra metade-sexo, mulher divina quase menina feita criança. Dou um adeusinho a minha metade-alma convertida em bolha-fogo queimando portas, janelas e escadas.

Faço-me um.

Eu diante, mediante, restante de um círculo que se desfaz, dilui-se no corpo-lycra debaixo das luzes e música neon que nos acompanha. Minha mão – ambas – deixasse ir pelo joelho esquerdo, levemente entre o sumiço-coxa, na virilha calma, úmido planalto antes de me esquivar do sexo, será que sucumbo? será que sumo? será que aninho? e sei que sobrevivo porque descubro meu suor pingando nos meus braços, os meus olhos se fechando em mim, e abrem-se perto dos lábios dela, fumegantes e únicos. O meu abismo se abre logo no umbigo, centro e destino do meu futuro beijo, do meu futuro gozo e do meu maior desejo.

Já não tem círculo, ninguém baba, não tem mulher desejando mulheres, nem garrafa girando no chão de uma festa que jamais deveria acabar. Todos se afastam temendo um final para aquela tampinha entre os seios, entre os finos cabelos que rodeiam os mamilos, entre a vontade que não cabe, nem se justifica numa tampinha subindo entre os seios, os meus futuros mamilos com finos cabelos.

Eu olho no olho dela. Começa o que será o fim deste desterro, porque nunca se deve abandonar uma metade-alma por uma metade-sexo. Mas o júri popular aclama, e antes que o vulcão destrua com suas bolhas-fogos portas, janelas, escadas, metade-alma, amigos cúmplices canalhas sentados em círculo, uma garrafa sem tampa, um corpo jovem coberto em lycra, eucomeçoefimdemimmesmo, e só minha mão na autonomia do desejo, no perigo de um instante, esse que não acaba, se desvenda o hálito, suspiro, acalma perto dos lábios dela, dos meus futuros lábios, do meu viril ereto, o meu vulcão estala.

 

Anuncios

Responder

Introduce tus datos o haz clic en un icono para iniciar sesión:

Logo de WordPress.com

Estás comentando usando tu cuenta de WordPress.com. Cerrar sesión / Cambiar )

Imagen de Twitter

Estás comentando usando tu cuenta de Twitter. Cerrar sesión / Cambiar )

Foto de Facebook

Estás comentando usando tu cuenta de Facebook. Cerrar sesión / Cambiar )

Google+ photo

Estás comentando usando tu cuenta de Google+. Cerrar sesión / Cambiar )

Conectando a %s