O burro, a camela e um sem-fim feliz

Uma camela e dois camelinhos. Um burro guiando-os acorrentados sob o bafo do deserto. O asno, cabeça baixa, orgulhoso e cansado, os puxa num esforço que supera a dor, levando-os pelo caminho certeiro até a felicidade.

Essa é uma imagem real.

Desde que tenho lembranças, lá estavam esses animalzinhos de madeira talhada, acorrentados sob o bafo do Trópico, sempre se movendo pelos cantos de casa.

Meus pais tinham ganhado de alguém muito próximo a eles no momento do casamento.

Era uma imagem feita em madeira, com toda a fantasia de uma criança, crescida e cuidada no carinho de quem, orgulhosos e cansados, nos levavam – minha irmã e eu – pelo caminho certeiro até sermos felizes.

Eles tinham se conhecido em La Habana. Minha mãe tinha saído de um latifúndio confiscado de terras de café e cacau que pertencia a meu vó para estudar na cidade. Meu pai, que era muito simples, a conheceu no surpreendente acaso do amor.

Logo depois que se apaixonaram, e voltando para a casa de um irmão da minha mãe, onde ela morava perderam o último ônibus. Meu tio ficou chateado e pediu para escolher.

Na casa onde eu nascera quase cinco anos depois, da minha avô mãe do meu pai, era impossível eles viver a nova paixão. Dora tinha um batalhão de dez filhos, maridos e mulheres de esses filhos, e alguns já netos dessas uniões.

Foram dormir em praças públicas, em bancos de madeira rasgada e metal oxidado. Dormiram sob a sombra halogênea de flamboyants – a árvore maravilha – cedros, paineiras e palmas-reais. Descasaram abraçados, nos cafunés da noite habanera, na rara tranquilidade de estrelas limpas despoluídas. Conviveram o amor com noctâmbulos, bêbados, doidos, retardados, outros amigos da estrada do amor.

Eram felizes.

Eu me lembro deles contando as histórias com uma paixão que até hoje os mantém juntos, sorridentes e orgulhosos como o asno, a camela e seus dois camelinhos na travessia da vida.

Depois eles descobriram uma grande casa ou armazém dentro de um lixão perto da zona portuária. Lá se foram eles testarem a felicidade. Lembro de que dividiam espaço com outras famílias que tempo depois também viraram amigos comuns. Deviam ter que transar no cantinho, em silêncio, para não ter que se misturar demais o seu amor.

Essa prova de amor, eu acho, deve ser das mais grandiosas.

Não se faz amor calado. O amor se grita a todo vento. Desenha-se nos muros de cidades. Risca-se em pontos de ônibus. Escreve-se na coluna social do jornal de domingo com lápis sobre a crónica de economia. Faz-se com gestos, de braços abertos, aproveitando a sombra que bate no chão. Anuncia-se, caindo da altura mais alta, perante a morte, antes de morrer, sonhando.

Esse amor se lhe conta aos filhos para que depois eles os escrevam em blogs, na fantasia de quem não viveu aquilo. Se lhe canta aos netos nas vozes de fadas e anões. Lembra-se por sempre no abraço matinal de quem ainda vive junto, como quem na ausência de paredes ou compreensões familiares se joga na rua, sob a sombra de praças, dentre os cheiros excitantes de um lixão.

Eu me lembro do burro ter perdido uma pata, e mancando ainda puxava a corrente da camela. Recordo-me da corrente entre a camela e o primeiro camelinho, ter perdido a continuidade dos dias – e dos parques ­– mas seguirem juntos, dispostos trás os vidros de uma prateleira de casa; como eu que já solto cruzei o continente à procura de uma imagem suficientemente bela para contar para meu filho, depois neto – quem sabe um plural desses sujeitos – e me fizesse acreditar em fadas e anões.

A felicidade tem poucas palavras. A tristeza já é mais difícil, contá-la.

ps. a imagem usada, tomei da Revista Zupi, obra está exposta num mural em Miami.

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