Bem-vindo a Cuba

Duas amigas, quase desconhecidas, viajaram nesta semana para Cuba.

Cuba, Ilha à deriva, casi desconocida, todos te buscan, ansiando el amor, te buscan, para abrazarse a tu amor.

Quem viaja para Cuba, anda sempre com aquela dúvida cruel de quem viaja onde existe o terror.

“É uma ditadura” – repito. Não discordem marxistas, os utópicos, os académicos comunistas de fim do século XX. Não festejem os que não sabem o que é viver outro jeito que não seja o “quero mais”.

Mas se imagina la isla povoada de pequenos Fidelitos de barba basta, defendendo a risca-faca o dogma de uma revolução de cinquenta anos, manifestos comunistas como bíblia, paz y amor, o Cuban-dream. Desçam cortinas, favor em pé, aplausos à ignorância, morra de rir “dôce”.

Mas logo no aeroporto, você vê sim, muitos uniformados, verde seco, com aquele olhar que já desconfia, simultaneamente acusa, descobre algum medo, te incrimina. Não se usa barba. No exército, diariamente, eu tinha que raspar uma vez, as vezes duas, a barba. Sofri.

Um exaustivo operativo, que começa tempo antes na inteligência militar,  continua naquela pressão do processo de “admissão” na ilha, um que de sorte “ – me puede acompanhar, por favor” . Até sair da sala de imigração corre-se grande risco de enfartar.

O cadete te olha nos olhos.

Lembra-se da última vez que você olhou nos olhos de uma pessoa?  Lembra-se do tremor de descobrir alguém? Ou que pudessem descobrir você?

Um pessoal jovem, a maioria do interior, incitado a fazer currículo na vida militar, jurídico-militar, económica-militar, engenheira-militar, médico-militar. Educados na compreensão de um mundo que existe somente porque, sobrevive ao grande inimigo, que tem seus heróis reais discursando, em carne e osso ao palanque de uma nação, cientes de uma verdade que acreditam ser além da única, a melhor.

O cadete confere que a pessoa diante do vidro, chegando a Cuba pela primeira vez, querendo disfrutar das maravilhas deste país que defende e que cresce e depende dele ali com o carimbo na mão, seja realmente você. Que você não seja um espião dos norte-americanos, que não traga drogas, que acredite nas apostas da Revolución ou que porte uma somatória digna de fazer o país crescer.

Se você não piscar demais. Se não tiverem que pedir “míreme, por favor” mais de duas vezes. Se você não fizer xixi. Se não cuspir no vidro tudo aquilo que você realmente acha de nuestro país e de como se vive ali. Se os pacotinhos de duas quilogramas não estourarem. Se você, boooom, não explodir.

Ba-boom…

Um, track, na porta liberada. Uma puerta branca, estreita, evidentemente gastada, velha, perigosa se deixa abrir. Ainda vai sentir um frio no pescoço, subindo até a orelha, um arrepio do peso do olhar do cadete a suas costas. Um frio que alivia assim que atravessa aquela linha no chão. Uma linha no chão? O que isso significa? Um barulho denso, murmullos em varias línguas transitando, se organizando num “formigueio”  de saída pelas próximas poucas portas.

De repente os sorrisos vindos do reencontro com a sanidade, com um respirar calmo se mistura a novas filas, bagagens de mão, três ou quatro agentes da Aduana. Você relembra as marcações na Lonely Planet, desconfiança de ter riscado algum lugar censurado pelos militares. O livro de Frei Betto com anotações dúbias, mas do que desconfiantes, dos teus medos sobre a ilha. Aquele pacotinho que um cubano, ainda em São Paulo, te entregou para trazer para a família dele. Será que pode entrar com a caixa de Chiclet´s ? Ipod? Os chinelos são “Made in Brazil”. O cartãozinho da Aparecida, as fitinhas do Nosso Senhor do Bomfim, o chaveirinho do Timão. Desconfia até do papel com os contatos daquele gringo no aeroporto de Panamá.

Nos olhos da agente da alfândega, em brilhos coloridos, você não vê nenhum piscar de alerta, só os olhos de se arregalar, um sorriso picante, cúmplice da moça para você. Algo que de simples, ela gostou, sorriu, partiu.

O terrier encosta em você, brincalhão, fofíssimo, te lembra de alguma velha mascote de alguém. Ele cheira, se enrosca nos pés, afasta-se até alguém, brincalhão, ainda fofinho, mexendo a cauda. Você nem suspeitou até que aparecem mais três, soltos, brincalhões, já nem tão fofuchos assim. Cheiram, enroscam-se nos pés. Transitam na esteira onde começam a aparecer depois de uma hora as bagagens. Um barulho mecânico que lembra o caldo de cana, e descobres os “donos” pelas coleiras andando de botas, à dois.  Insistem nos cheiros das malas, mochilas, caixotes que chegam.

No mínimo você se imagina num videogame com pistola de ar e balas de borracha tentando acertar os cães e seus donos. Tudo em primeira pessoa. Você.

Avista as suas, se aproxima e as pegas. Detrás, uma confusão que você não vê começar nem se desenvolver nem terminar. Simplesmente uma turma entre empurrões, os cachorros alertas correndo, alguma voz em inglês ou num espanhol bem cubano.

Não entendes. Não vas a entender. Não sabes que se passou.

Caminas já sem esperanças nem sustos.

Todo preparo emocional para uma viagem deveria acabar no momento que se escolhe o lugar destino. Não há futuro para o presente, nem boletos para outro lugar. Você carrega todo em você, como a libélula quando parte voando para morrer.

No afunilamento, lei dos fluidos, a pressão aumenta e a velocidade diminui; você se depara com uma serie de janelinhas, pessoas um pouco afastadas abrindo suas bagagens em pequenos amontoados de coisas, coisas contáveis que ganham um saldo em dinheiro. Você aí não precisa disso, percebe, e da janelinha um sorriso, e o primeiro sorriso cubano em terras cubanas te pergunta se traz muitos presentes, eletrodomésticos em demasia, coisas de valor que pretende escambar, diamantes, dólares. E você que acha que trouxe só o necessário ganha uma taxa comuns, um valor em moeda conversível – um outro dia melhor explico – que deve pagar ao cambio internacional cubano. Um valor, o primeiro valor cubano em terras cubanas e adeus, sorriso.

Abre-se uma porta, esta mais leve e de vidros. No fundo, detrás da grade, os eufóricos dos reencontros. Em Cuba,  voltar de uma viagem é uma proeza, das grandes. Das sublimes.

Descobres que tem algumas propagandas de bebidas, destino turísticos, muita gente como todo aeroporto de antes. Vês a bandeira. Aquele triângulo vermelho de estrela solitária é a inveja de muitas das nações. Um orgulho que só quem nasceu, viveu ou morreu lá, sabe.

WELCOME TO CUBA.

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