Telefone sem fio.

Sete e muito poucas da manhã o celular toca. Atendo. A ligação é indigesta, dessas que não tem como não abandonar de vez a cama, o lençol, os “meus” sonhos. Do outro lado, somente ela, tal vez sem querer, tal vez sem saber quanto, me atinge o peito. Faz uma dor.

Telefone celular não é meu melhor companheiro. Não é uma extensão do meu corpo. Não é confidente. Não gosto dele – dele já está errado, bem errado esse português.

Mas fazer o que?

Vivi vinte sete anos sem ter telefone. Essa é só a idade que eu morei em Cuba. Vinte e 7 anos sem ter como me “comunicar”. Confesso, não é certamente confortável, mas possível.

As situações me demostram, “larga o seu telefone”, vai viver a cada vez.

Eu tinha uns poucos anos, menos de dez, Dora, minha avó me levava na casa da tia Lola uma vez por mês. Tio Manolo iria ligar desde os Estados Unidos. Ele era o tio que no conhecera, tinha ido embora de Cuba no ano 1980, na levada do Mariel. Quem assistiu ao filme Scarface protagonizado pelo Al Pacino poderá lembrar a cena inicial: milhares de pessoas se atropelando para embarcar rumo norte, rumo a certa felicidade. Eu nasci naquele ano, meus pais decidiram não partir.

À espera da ligação escutava mil histórias das viejas, aquelas duas mulheres me quiseram demais; e eu senti, cresci, vivi com esse amor. Depois o telefone tocava e corríamos felizes a agarrar o aparelho. Por meia hora o mundo parava para escutar aquela voz metálica, distante, desconhecida falar e falar. Eu o cumprimentava, seco, sem muita tesão. Criança, “mamãe” , vive do que vê e toca, do que sente e cheira. Vive do real. No final ficava um clima tenso, como de que iria chover, como de quem iria a chorar.

Em casa nunca tivemos telefone. Santos Suarez, um bairro as antigas, a vida não começava e terminava na porta de casa. Então os vizinhos disponibilizavam seus aparelhos para outros vizinhos usar. E se pensar, era só para situações de emergência, se equivoca. Lá escutava eu, os nomes dos procurados pelo auricular. Gritos atravessando o final da novela, o instante crucial na partida de pelota, a janta em família, aquela soneca no meio da tarde.

Assim distante, mais eu, penso no absurdo de uma situação dessas.

E mais, imagino a incrível e falsa incondicionalidade dos vecinos para não estourar o saco da paciência no final da novela, naquele lance do “baseball”, o almoço em família. Aquela soneca…

Na adolescência e mais, era assim que os amigos e amigas me achavam. A diplomacia moderna não conhece semelhante sofisticação, porque ainda, eu tinha a cara dura de me estender em charmes, prezes e xavecos para meus interlocutores do outro lado do fio, sem me preocupar com a minha temporária ocupação de moradia.

Era recorrente eu encontrar um amigo, e o fulano dizer “entonces, no me llames más a casa de la vecina”. O gesto do rosto carregava decepção, era a extensão do seu corpo se extinguindo. Alguém se declarava fora desse sistema de intromissões e chutando o balde, mandando longe o meu amigo, tinha gritado o fim das comunicações. Esse poderia ser o começo do fim de uma relação, se validada nessa atualidade, onde se você não tem celular, ninguém te liga.

Eu não ligo.

Entre 1999 e 2001, eu fiz serviço militar – acredite, eu quase virei o milênio de plantão. Naqueles dois anos “dos quais prefiro não me lembrar” meu cargo era relativo às comunicações da Unidade Militar. Era, por demais, o único responsável – além do meu superior que ainda era primo meu –  por aquele monte de cabos e fios para se conectar.

Nos momentos que o bicho pegava, temporada de chuvas ou auditorias de Unidades superiores alguma estranha causa fazia interromper aquela rede antiga de comunicação. “Sargento Menéndez!”, gritava o coronel e eu disparava a solucionar o problema. Entre testes de condutividade, verificação da energia elétrica, trocas sucessivas de aparelhos, resmungos e consertos a situação era resolvida. Eu ficava bonito no filme, e ainda me poupava dos comandos dos tenentes nas tarefas mais fortes.

O que ninguém suspeitava era que aquele todo enrosco na hora H era friamente calculado por mim… Sorrio, eu não estava sendo filmado.

Ainda no sorriso, esperando entre duvidas e desejos contrários e paradoxalmente confusos, se poderia viajar ao Brasil, entre uma mulher morrendo entre meus braços e outra esperando ainda morrer, o telefone, aquele invento erroneamente creditado ao Graham Bell, teve também o seu papel.

Natalia me ligava quase todo dia.

Pode pesquisar; o valor da ligação a Cuba, se não é o mais caro, um dia ainda vai ser. Daí se culpa o bloqueio yanqui ou a permanência do Fidel. Escolha um canto, e acredite.

E que o diga a dívida na conta telefónica na época. Ela tinha se segurado de fazer um daqueles vantajosos planos onde tudo o que você quiser, já pagou? “fica a vontade, fale com quem você quiser, onde quer que a pessoa esteja”.

Eu tenho certeza que depois que o G2, como se chama o serviço secreto cubano – de todos, o melhor/pior disparado – percebeu das largas conversas internacionais, deve ter começado nos espiar. O difícil para eles seria saber por onde seria a comunicação porque como eu não tinha telefone, a ligação acontecia no lugar onde eu estivesse, às vezes, sem previa combinação. Eu ligava a cobrar no número da Natalia, ela não a aceitava, mas ficava sabendo do número da minha localização.

Era minha cena Matrix. Eu era o Neo, de corpo e em alma, no meu próprio filme. Sendo feliz numa vida sem saber o que me esperava por vir, viver. Pílula azul o vermelha? A resposta não importa: vou ser feliz.

Neo-eu.

NeoDemis.

Quando pisei o Brasil a Natalia ainda não tinha pagado as parcelas da Embratel. Simplesmente a companhia não tinha cumprido os acordos no contrato e a conta estava multiplicada por dez. Ela se recusou a pagar. A briga – toda pelo 0800 – se alastrou  por alguns meses e até chegamos ir na sede da Embratel em São Paulo, para incrivelmente, ter que ligar a sede principal deles, lá no Rio. Virou o ano, acho; e as contas e cobranças deixaram de acontecer. A preocupação dela sobre uma possível cobrança posterior ou o nome sujo – serio amigos, pensem nas expressões do “brasileiro” – no CERASA , simplesmente desapareceram.

Tinham tido muitas palavras, suspiros, prantos, músicas cantadas ou rasgadas de um aparelho. Teve muita promessa, gemido, berro. Teve súplicas, esporros.

Teve silêncios.

Eram pedaços de realidade pulando pelos fios, viajando nos satélites, caindo na telepatia. Parecia magia, e era.

E hoje de manhã… pois é.

Ela.

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