Um furação chamado vida

Sandy é mesmo nome do que? Cachorro? Apelido para carro? Filha da amante do tio do Ceará? Patricinha de Moema correndo no Ibirapuera? A empresa de dedetização da Zona Leste?

Sandy é o nome do furacão que atravessou o Caribe, la Isla e ao longo da costa leste dos Estados Unidos. Foi inclusive por esse fato “americano” veiculado na tevé aberta que fiquei sabendo da tal de Sandy. Em Cuba, segundo as notícias, teve onze mortos; um dos mais mortíferos das últimas décadas no país.

Pelos meus pais soube que tudo com a minha família estava bem.

Em Cuba, parte de mim, em mim, tenho minha mãe, meu pai, irmã três anos menor, Mariam, minha única sobrinha e vários primos e tios, e parentes de primos e tios. Alguns desses, também, receberam os ventos do fenômeno em terras da Florida e Nova Jersey, aquele pedaço-diáspora de Cuba. Uma ilha no continente, à deriva.

O nome dos furacões se escolhe ainda antes de começar a temporada ciclônica entre o primeiro de junho e o trinta de novembro entre institutos de meteorologia da área de riscos: os países com costas no Caribe, América Central, e toda América Insular como se chamam as ilhas flutuando no mar Caribe. Escolhe-se um nome por letra para identificar los ciclones nas três línguas da região – español, inglês e francês – alternando-se entre feminino e masculino, nisso até que as feministas não podem reclamar.

Variando, como desvaria o tempo no relógio, ao longo do ano, podiam-se ter vários furacões, e vários dias para nada se fazer. Imagine cidades inteiras, vários países, quietas a espera de um sopro dos céus acabar com muito ao seu redor.

As minhas lembranças mais puras, aquelas sem juízos, só de lembrar, eram de longos dias, com minha família, todos em casa; o que seria para os padrões de lá, até certa abundancia de comer, despesa de velas, baldes de agua todos enchidos, jarras, garrafas. Lembro-me de dias grises e uivados agudos do vento nas frestas, nas roupas batendo penduradas nalgum varal, o radio acesso com as notícias de aonde andaria el ojo, e a trajetória prevista, uma margem variável de movimento. Enquanto os ventos mais fortes não passam, e que podem não passar, os vizinhos transitam as ruas conversando; crianças, em grupos menores que o habitual, brincam na rua; os estabelecimentos e poucos comércios se mantém fechados, por vezes não há eletricidade, poucos carros transitam, tal vez até um bom som saindo por uma janela, provavelmente, da minha casa.

Um furacão em certo sentido é previsível, tem toda uma formatação de fatores climáticos que modelam tanto as caraterísticas físicas e as de translação. Em Cuba, a Defesa Civil baseia suas ações nessas previsões, em certo sentido. Ações que se baseiam no cuidado da população, em certo sentido. Cuidados que baseadas na remoção temporária de famílias, animais, valores públicos para lugares de maior segurança.

Nesse sentido é bom lembrar as imagens pessoais da pedra seca, um recife qualquer numa eventual férias de verão, ainda fora do mar, desgastada pelo bater da brisa, as chuvas vespertinas, noites quentes, fortes soeis, umidade relativa sempre acima de setenta por cento, a primeira terra de América sendo conquistada pelos discípulos de Hernán Cortés,  disparos dos colonialistas, los mambises os primeiros cubanos que não aceitaram dominação, a República financiada à distância de 90 milhas ao norte, a alegria de uma tal Revolución, um herói midiático chamado Ché, bons desempenhos na educação, a medicina e as Olímpiadas, nos bastidores mortes, coerções ideológicas, desterros.

Na mídia há controvérsias. Nas esquerdas, aquele direitismo. Nas direitas, aquele sem noção.

As noites, deitados no chão, sobrevivíamos ao calor. Quando não media entre as pessoas qualquer outro sentido que as palavras, num grupo qualquer, uma família comum, numa basta madrugada, pode-se experimentar as mais lúcidas discussões sobre política, seus derivados produtos sociais, as mais arriscadas e sofisticadas operações financeiras, todas as vertentes filosóficas aplicadas, matemática binaria descontruindo as relações pessoais, medidas médio-ambientais de curto, médio e longo prazo, recitais dadaístas corais em línguas tribais, óperas primas em prantos, memórias descongeladas ao candor de uma vela moribunda. Assim era lá em casa, assim era meu ciclón.

Num país como Cuba, controlado ideológica, política, militar e meteorologicamente pelas mesmas instituições – ai, as palavras! – fica difícil saber, discutir, discorrer, criticar, propor, ENTENDER o que sucede.

Nas manhãs seguintes aos fenômenos saía com meu pai andarilhar o bairro. É extranho, mas as imagens que lembro  após um furacão eram sempre de manhã, como um dia depois de outra vida, como manhã depois de uma morte. Tinha aquela tristeza dos dias triste. Uma simples vontade de melhorar.

Nas manhãs seguintes a minhas manhãs o país era só desolação. Saberíamos das mortes, das famílias que não teriam onde viver, se a colheita de batata ou cebola ou banana ficariam dizimadas para próximo ano. Veríamos as heroicas imagens dos dirigentes caminhando nas áreas afetadas. Saberíamos aonde iriam a pernoitar por meses, anos, décadas as famílias que ficaram sem casa. Ouviríamos da ajuda dos países não-alinhados em arroz, óleo de cozinha e leite em pó.

A noite era de nuvens finas, chuvinha gelada, silêncio profundo cobrindo a cidade. A vela gastada, quase se apagando. Minha mãe dorme no sofá, enroscada aos travesseiros. Meu pai, em estrito silêncio, escutando nos fones as notícias no radinho. Minha irmã capotou, e ronca. Claudia e eu nos vamos ao meu quarto, sabendo quanto vale um silêncio numa madrugada destas.

Do lado de fora, é perigosa a vida. Dentro, o perigo é não viver.

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