Sem vistos nem fronteiras.

Liberaram as viagens para cubanos, disse a imprensa. Não vai ter que pedir permissão de saída, se comenta nas mídias sociais. Cuba é livre, sonham alto quem não tem ideia do que é viver numa ilha.

Cómo foi que você saiu de Cuba? Essa pergunta bate com folga qualquer questionamento que já fora me feito durante a vida. A pergunta não me toca, não me diz nada, não me interpela. A pergunta só me diz da ignorância, me traz dúvida, me afasta.

As respostas: Saí de avião, pelo aeroporto, tudo em ordem… Apaixonei-me de uma mulher, ela arriscou tudo, deu-me um filho… Não sou emigrante ilegal, posso voltar assim que quiser, mas não quero, fico por aqui.

A vida é para frente, não existe nunca um voltar atrás.

As reformas migratórias eliminam na prática a o pedido de permissão de saída que exigem as autoridades cubanas para cubanos que ainda morem no país; aumenta para dois anos a estadia fora da ilha para quem for cidadão cubano e otras cositas más. Mantém as taxas a serem pagas aos consulados para aqueles “ainda” cubanos que permaneçam fora do “seu” país.

Reconheço que a diáspora cubana ficou contente. E até eu, mas… Até onde todos terão o direito e a coragem de sair? Quem vai largar sua infância, suas esquinas, seu porvir? Quem, mais do que interessado em ter as coisas que o mundo atual, moderno, capitalista, individual, catastrófico oferece, vai morrer num outro lugar? Quem, nas mãos da ditadura política, de consciência e militar, que carimba os passaportes do livre vir e devir,  terá o direito, o humano direito de sair, voltar, revoltar?

Quem vai poder vir me ver?

Quando Natalia e eu decidimos que eu viajaria para nós encontrar no Brasil parecia tudo simples. Uma carta convite de uma instituição social ou cultural. Dinheiro para passagens de ida e volta. Alguém com responsabilidade financeira para me receber.

Em menos de um mês tudo isso estava resolvido.

Não que foi fácil, certo? Imagina neste Brasil alguém que decide pagar do seu próprio débito tudo o que a burocracia mundial me pedia para me locomover. Só ela mesma.

Só você.

Caminhava pela rua Teniente Rey que também chama Brasil. Na minha cidade, algumas ruas têm dois nomes: um, das antigas, quando a cidade ainda não conhecia a Revolução e pelo qual as pessoas realmente a reconhecem; e um segundo, aquele que o Fidel mandou pôr. A Teniente Rey; segundo eles, Brasil, desce desde o Capitólio até a Plaza Vieja, e lá ia eu fazer fila no consulado do Brasil. De tanto que fui, conheci os seguranças, arrisquei minhas primeiras palavras em português, obrigadecí, reconheci-me andando na Av. Paulista pela primeira vez numa foto imensa que pendurava lá.

“Nosso” primeiro tento de visado foi negado. Natalia frustrou, e até chorou. Eu, naquela insossa conformidade de ser feliz, não me abati.  A saga estaria só começando.

Para sair da ilha nunca se precisou de autorização.

Logo depois que a Revolução Castrista tomou posição, muitos levaram suas contas bancarias para Miami, com elas se foram famílias completas, relíquias históricas e culturais de quem possuía o melhor daquele país. Na verdade, largou-se todo aquele que não acreditou no que dizia o Fidel. E não foram poucos, não!

Quem acreditou ou não teve como ir, viu o país se virar, e com isso, eles também. Era difícil ser feliz, mas ainda assim se conseguiu.

Durante décadas, famílias ficaram sem ter como se reencontrar, nem se falar, nem se escrever.

No ano 1980, vinte anos depois do Fidel assumir plenamente o poder, teve o que se conhece como El Mariel. Um dito acordo entre os Estados Unidos e seu vizinho comunista do Sul liberava as fronteiras marítimas entre ambos os países para quem quiser navegar. As famílias divididas tiveram a primeira oportunidade de se reencontrar. Em troca, o Fidel exigiu que opositores, intelectuais, veados e escorias tivessem que acompanhar em lanchas pagas pelos endinheirados cubanos de Miami e fossem embora do país.

Minha mãe estava grávida de mim quando meu pai pediu a ela para viajar os três. Ninguém naquele dia me perguntou, mas ela negou-se e na ilha, eu nasci. Toda minha vida teria sido outra, mas nessa outra, eu nunca me imaginei.

Mudamos os trâmites, e segundo a própria funcionaria do Consulado, eu seria o primeiro cubano em qualidade de voluntario a viajar ao Brasil. Ela mesma não sabia o que fazer. Então Natalia se informou, ligou a Brasilia, orquestrou tudo pelo telefone, contatou o consulado em La Habana, me orientou. Tínhamos até uma advogada amiga na coligação que em determinados momentos teve que agir. Os documentos da instituição que me convidava viajaram até mim, eu os entregaria junto com os meus naquele escritório com bandeira do Brasil, feitos os pagamentos, eles retornariam juntos até Itamaraty.  Quatro meses depois, muita paciência e outra viagem da Naty a La Habana foi possível acontecer.

Catorze anos depois, em 1994, o Fidel intimou o Bill liberando o mar entre Florida e La Habana. Não existe cubano que não tenha entre seus queridos, alguém que se lançou ao mar dessa vez. A sorte, a bússola e os tubarões ditariam o cujo cada final.

Brincando na praia vi as balsas partir, entupidas de negos na ilusão, naquela pretensão de ser feliz. Era o sonho americano mais possível do que aquela falácia do Marx, nessa altura mais uma belíssima interpretação do Chico, Harpo e Groucho na versão caribenha de uns tal Castro´s Brothers.

Esse pedacinho da minha história é uma lágrima da qual é impossível me esquecer.

Eu vim de avião na calorosa manhã do 10 de agosto de 2007. Soltei-me da mão da minha mátria e pulei no colo de um novo país. Não teve que apertar as amarras de uma vela no alto-mar. Minha mãe teve medo de abandonar tudo o que conhecia como o “seu” país e o meu pai todo o amor para lhe acompanhar. Naquela ilha eu tinha nascido e crescido e vivido feliz. Uma mulher tinha olhado no fundo dos meus olhos e não se importou com o que haveria de acontecer. Eu tinha meus papéis em ordem e nada para me arrepender.

Agora eu estou aqui. Comigo e com o Benjamín.

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4 pensamientos en “Sem vistos nem fronteiras.

  1. O Brasil fica ainda mais feliz com vc por perto =)
    E eu tb!
    Fico mto feliz em te ter em nossas fronteiras geográficas, mas mais feliz ainda em te ter dentro fronteiras totalmente transponíveis para onde vão aqueles que buscam o questionamento, aqueles que vão além, aqueles que nunca ficam presos em lugar algum porque sonham!

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