Mis parques

Recém descobri aqui na Vila Gomes, no bairro onde moro na Zona Oeste de São Paulo, uma praça que me trouxe de volta as lembranças de “meus” parques de La Habana. Na verdade quem o descobriu foi o Wilson, meu mais cúmplice cubano em chãos paulistanos, enquanto passeava com a Morena, a cachorra dele.

Parque, para quem não sabe, e onde você pode ir quando vier a vontade e curtir as estrelas de uma bela madrugada. Madrugada, pra mim, é um céu com estrelas, e um silêncio virgem que só permite aos cães réus latirem aos gatos livres que transitam a mesma noite de céu estrelado. De esses parques e madrugadas, só conheço destes lados da cidade; esse.

Em La Habana, desses, eu conheço muitos.

O parque La Sola foi minha praça de infância. Estranhamente chamava-se assim por uma rua do bairro que não passava exatamente por ali. Quando eu nasci minha família morava numa simples casa na rua desse nome: La Sola 117.  Até lá andávamos el piquete por vinte minutos tocando campainhas, pegando mangas se era a época, mexendo com outras crianças do bairro. Tudo divertido. Era um parque cheio de flamboyants, a árvore que para mim marca, as estações.

Nesse lugar me lembro de uma de minhas proezas de crianças. Uma corrida que devia ganhar, só para me demostrar – coisas do ego – que poderia ser o melhor da escola nesse item da educação física. Eram doze voltas das quais fiquei apenas no segundo posto até a última volta. Eu acreditei, e ganhei.

Hoje teria aceitado o segundo lugar.  Eu não preciso vencer para saber quem sou.

Em Cuba, os parques não temem da invasão nem se fecham com cadeados para dormitar. Vás ver casalzinhos de pernas cruzadas nos bancos, tentando não gemer ao gozar. Cachorros soltos perambulando ao que vier virá. Sagradas intervenções da mais pura fé africana. Pequenos grupos entorno a um violão, duas garrafas de ron e um eclético menu musical escolhido ao acaso pelo assobiar.

Éramos três amigos. Dois com pintinho. Ela sem. Fumávamos unzinho naquela brisa de querermos firmar gente grande. Talvez nem isso nos fosse consciente. Era só para rir mais. E no queima aqui e acolá, de mão em mão, o cheirinho vem, sobe mais, rachando daquela piada besta, avisto dois gêmeos vir.

Tivemos que chorar de rir.

Son gemelos sí, están vestidos iguales – confirmei ainda sem conseguir parar de rir.

A madrugada era úmida. O Parque de los Enamorados é um quarteirão inteiro num bairro que se poderia chamar de residencial. Os gémeos vinham na nossa direção, cabulosos, nós interpelar – son policías cojones! – e se viu a erva voar, e nosotros ainda sorrindo, bem chapados e ligeiros, fomos nos beijar. Ainda os mesmos três.

Mas Calle G como se conhece a Av. Dos Presidentes, um passeio central que desce até o mar, foi o parque que mais cresceu dentro de mim. Acho que era ano 97, sepá, quando me apresentaram. Eram meus primeiros momentos de curtir metal, e ali que se juntava a galera depois dos shows para socializar. Socializar, escrevo eu aqui para inglês ler. Na real, era o espaço mais sem noção de toda a ilha. A madrugada ficava invadida por zumbis de preto, e tatuagens, e infindos referenciais de rock-and-roll internacional, e drogas artificiais, e remédios de alucinar, de indas e vindas sem nada procurar.

– Mas, tipo assim, existe rock em Cuba?

Ah, filhos da Tevé Globo e sobrinhos da Ilustrada. Pois bem, descia lá par de noites por semana a curtir os amigos e a perambular. Experimentei. Briguei. Corri de policia. Vi carro capotar. Namorei. Falei besteira. Andei, voltei, fui de novo, retornei. Tudo sob o sublime céu de Habana.

.    Sem grades.

.                             Nem medos

.                                                        Sem taxas.

.                                                                                Nem dinheiro.

.                                                                                                                Sem sono.

.                                                                                                                                        Nem fome.

Daí levei “meu” amor nesse parque no Butantã. Um do lado do outro, vimos a noite avançar. Na praça, porém, só apareceu a solidão. Somente não, que esse é um bastião que ainda tem que aprender abraçar. Tirei a camiseta, os chinelos, abri os braços. Nalgum lugar desta cidade me senti naquela outra cidade nalgum outro lugar. Todos “meus” parques nessa praça aos meus pés.

Toda a minha história…

ps.  O nome da praça é Antonio Manoel de Espírito Santo

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2 pensamientos en “Mis parques

  1. Pingback: Nuestros Parques | ENTRE 2 LINGUAS

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