Frio em Agosto.

Sair de Cuba foi uma bela surpresa, uma imensa alegria, quase uma dor. Do outro lado da porta de imigração ficou minha família chorando, alegremente, o fato de ver um filho partir. Numa ilha viajar não é um simples fato. É quase um destino. Certo devir.

Muitas pessoas que conheci durante anos, tinham como única vontade a de “irse del país”. Cada uma delas tinha um sonho. Alguns prováveis propósitos. E ainda tinha todo aquele bafafá de Fidel e seu irmão, a ditadura, o bloqueio, a saúde é muito boa e os heróis de Buena Vista Social Club. Para mim, deixar a ilha nunca foi uma urgência, gostava daquele ritmo preguiçoso de curtir o céu, a possibilidade do mar a cada olhar, a sem vergonha do suor, aquele bafo que emanava meus mais profundos odores, a liberdade de andar porque o tempo se rendia aos meus pés. Meus amigos, meus amores. Uma vida.

O miolo burocrático desta história vai ser cortado por falta de espaço editorial e pelo alto grau de inverosimilhança. Consta, porém, o visto temporário I, em qualidade de Serviço Voluntário ao pedido do Projeto Quixote, emitido pelo Excelentíssimo Segundo Secretário Luiz Augusto Ferreira Marfil, por tempo de cento e oitenta dias prorrogáveis até mais três períodos similares e entradas múltiplas para o país destino. Brasil.

Ano e pouco antes eu tinha viajado para a Europa para um intercambio cultural.  Que conste Dinamarca não é precisamente um país da Europa, más fica por lá. E aeroporto não igual que estação de trem não, se você erra pode parar num outro país.

O terminal internacional do aeroporto de La Habana se acostumou às despedidas sem retorno. Naquele 10 de agosto de 2007, sem ainda eu saber, eu estaria indo embora para “jamais voltar”.  O que ficou em aberto com aquelas pessoas que foram me despedir prescinde compreensão, ainda estou por descobrir.

Mas para quem achava que os motivos poderiam ser dignos de histórias de Rubem Alves ou de conspirações versus os Castro, eu estava para simplesmente me encontrar com uma mulher. Dela haverás ouvir, mais. De fato, um fato que era certamente comum na ilha era viajar ao encontro de um amor: para desistir do passado precisasse de muito amor. Essa aposta de aceitar alguém para acompanhar é na maioria dos casos só o começo de esquecer quem você realmente é. É uma entrega sem volta. Algo para se viver. Sem esse risco não existiria humanidade. Não existiriam ilhas, aviões, Dinamarca, nem você aí.

Não haveria encontros. Também não, despedidas.

As luzes da cidade, lá nos céus, eram o começo e o fim do universo, enchendo por todos os lados a janelinha, meus olhos na janelinha, meus batidos na janelinha. O mundo estava lá embaixo, cintilante, gigante, possível.

O Real estava subindo, depois viria a crise nos Estados Unidos. O rombo dos Pan-07 estaria sendo comentado – que o diga a saga Rigondeaux, aquele boxeador, lembras? Era a ressaca sensacionalista do acidente da TAM.

Ninguém, exceto Natalia, estava esperando por mim. Tínhamos passado por muito para nos encontrar. E passaríamos por muito até aqui.

A noite em São Paulo estava fechada. Eu me surpreendi de ser frio em Agosto. Tenho a imagem do Holliday Inn na Marginal como ponto zero na memoria. E o Pacaembu onde mais tarde viveria muitas boas alegrias.

Eu estava com o meu amor. Minhas lágrimas estavam secas.

Para quem acredita em sinais, anos depois teve um insight, na hora não teve importância. Na esteira do aeroporto de Guarulhos, minha mochila vinha embrulhada numa sacola plástica das que usam para proteger bagagens que eu não tinha colocado. Algumas roupas estavam de fora, mas dentro do sacolão. O zíper da mochila estourou e alguém teve esse cuidado com minhas coisas. Eu não a consertei, e nunca mais a usei.

Anuncios

4 pensamientos en “Frio em Agosto.

  1. Amor: ponto de partida, porto de chegada! Os vividos, os vívidos, os por vir… na pele, no peito, na memória… viram semente, crescem, ramificam… ramos ficam… modificam… frutificam… Para VOCÊ, muita LUZ no caminho, amores no PEITO… que o silêncio se rompa em PALAVRAS de uma VIDA, e outra vida, e NOVA VIDA!

    Me gusta

  2. Lindo!
    Um romance perfeito, o amor cruzando linhas, abrindo portas, janelas e afins…
    Parabéns por mais este ano de vida Dê, digno de comemorar-se pelo simples fato de existir.
    Que hajam muitas outras histórias pra contar e a vida nos presenteie com suas pérolas de escritor.

    Me gusta

Responder

Introduce tus datos o haz clic en un icono para iniciar sesión:

Logo de WordPress.com

Estás comentando usando tu cuenta de WordPress.com. Cerrar sesión / Cambiar )

Imagen de Twitter

Estás comentando usando tu cuenta de Twitter. Cerrar sesión / Cambiar )

Foto de Facebook

Estás comentando usando tu cuenta de Facebook. Cerrar sesión / Cambiar )

Google+ photo

Estás comentando usando tu cuenta de Google+. Cerrar sesión / Cambiar )

Conectando a %s