Milton, minha paixão

… e Milton parou de dizer.

Eu senti o oco no silêncio daquele sentir. Ninguém no mundo podia abraçar aquela nossa solidão. Nem nos mesmos se abraçar, podíamos, porque tudo em nos, se alfinetava num raro ferir.

Milton era meu mais sincero avesso de ser. Minha dor. Meu tesão.

Eu queria ir lá, trás sua sombra fosca, e sem dor abraçá-lo até me fundir em nos dois. Mas ele recusava qualquer contato, não fosse ele quem o procurasse. Assim ficava difícil amar o ser, trás a pele daquele homem, diante de mim.

O amor por ele me doía, transformado numa lágrima límpida que corroia o meu rosto, furando veredas de mágoas conhecidas. Ele mesmo, nem sequer percebia, que enquanto mais ele sofria, eu por ele, mais me apaixonava.

A nossa sombra; pregada em paredes corroídas, em batentes de portas sem saída, em noites de infinitas solidões, era a luz que incendiava o meu destino.

Milton chorava. Eu sorria.

“E do que é que você está rindo?…” ele quem me perguntou, enquanto lacrimejava o oceano daquela saudade. Eu não tive coragem de falar, e nem de mais rir “…diz aí, o que foi?”

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crônica de uma morte lembrada

a gente precisa olhar aos olhos da morte. ao silêncio mudo de alguém que se ausenta no estar. a quietude da respiração sob o véu  das pálpebras, sem gestos ou insônia , apenas o corpo do que era, um ser anterior.

ela havia partido num desejo de raro viver. com as mãos abraçadas ao sol que girava, os presentes, outras gentes, despediam-se do corpo funesto, alguém que partisse anterior a nós, sobreviventes, que aqui chorávamos meio vivos, quase exaustos.

minha avó Dora havia falecido numa tarde qualquer de um mês que não lembro. ninguém da família e vizinhança esperavam aquele súbito decesso. e do nada, a rua e meus entes ficamos consternados.

a morte nunca avisa. sempre surpreende.

no velório, entre o calor e o cheiro das flores, nos, os adolescentes, invadíamos os cantos daquela casa de grandes salas, com sorrisos e piadas. entre choros e lembranças íamos despedindo quem era matrona da casa onde eu havia nascido, criado e conhecido o mundo primeiro.

pelos corredores ou perto do caixão, aglomeravam-se abraços de perdão, chorumens de culpas e ressalvas. meu pai ajoelhava-se em dor. outros tantos desistiam, sentados nas cadeiras de balanços, em conversas de meio tom.

que da morte não se sabe, nem se arrisca de dizer nada.

uma hora , eu encostei no vidrinho. ela estava num gélido gesto do acaso, apertando os lábios pra dentro. eu olhava o rosto talhado, sem lembranças ou emoções. lembro que fiquei lá, absorto sem nenhuma impressão. era ela e eu. antes, mil jornadas de dias cotidianos desde pequenos até aquele último dia. agora eu aqui; e ela…

alguém veio me puxar de lá, preocupado no meu olhar no cadáver de abuela. um sem entender me abraçava, mais pelos outros que por mim, aquele ser destemido, de quem quer muito aprender a viver.

da morte eu tenho medo, que me agarre sem volta ou defesas. ou me amarre sem amor ao vazio.

depois, minha prima e tia vieram me pedir que no enterro, no próximo dia, fosse eu quem lesse as palavras de despedida. sobre o altar de um túmulo de mármore branco, diante de toda a linhagem daquela senhora do bairro, os amigos e família; eu, mais que vivo, leria ao adeus para sempre que Dora merecia.

memórias do inverno mais frio

no palácio ateniense das musas, se trocam por centavos as paixões, os beijos na balança são por centeio, e os orgasmos se convertem em sete cordas de terrenos baldios. os homens sempre custaram menos, eu mesmo me troquei por um espelho.

faça frio, venha calor

a ventania da criança do inverno que trouxe suas folhas de fios dourados, e brindou sua noite amarela de danças circulares, quem desenhara o cais dos seus dentes, a língua do centro do beijo, entre tenras maozinhas de um cálido chão: era os ossos o abrigo do abraço, a carne estava quieta, não mordi.

faça frio, venha calor

no lumiar de um bosque de escuros matizes, no meio ao húmus das folhas úmidas do último outono, sob a tenra volúpia da terra inerte, um broto de vida suspira vulcões de afago e tesão no paralelo d´um instante: somente em olhos acessos que renasce o instante do agora… e tudo é possível no jardim dos tempos do Éden.

faça frio, venha calor

 

diz que

os instantes acontecem nos adentres numa sentença impossível de não creditar: o que vejo é; o que toco é, o que cheiro é, o que escuto é, o que lambo é.

entretanto, sempre é bom enfiar os dedos através das emoções do sentir. diz que fazendo isso a gente morre e volta viver. diz que isso é quando se atravessa o querer, até o amar. 

Faca na mão (e o destino é o queijo)

Passavam-se os dias, Benja, e nos juntos crescíamos, entre o ser que eu era, e junto a esse outro ser, ao que com você, eu me transformava. Nada confortável diante das palavras e as escolhas. Sempre rústico e exigente, talvez como com ninguém antes eu fosse. Nem mesmo comigo.

Mas aos poucos íamos achando uma maneira prazerosa de dividir compromissos e distâncias. De compreender silêncios e arrogâncias. Da humildade e a leveza. Dos sonhos, das esperanças.

Esses dias tive a oportunidade de realizar um desses desejos banais, do homem dentro da pele, de fazer com as mãos, de realizar com feitios coisas que eu imaginava.

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Café Suplicy, Farol Santander, SP / 2018

Chamaram-me para trabalhar num restaurante, num evento noturno, e nele eu estaria na cozinha junto com mais outros cozinheiros. Aquela noite foi trabalhosa – quem já sabe, sabe como é se dedicar horas aos detalhes culinários. Mas no fim, sai satisfeito.

Lembro-me, de ter contando a você como havia sido estar no alto de um dos mais importantes edifícios de São Paulo (Banespa, hoje em dia Farol Santander) fazendo umas das labores que mais gosto. Você perguntava por detalhes da altura, de quantas pessoas, do que e como eu havia preparado aqueles pratos, mesmo que simples em tão grandes quantidades. Falávamos, você com surpresa, e eu com orgulho.

Mas os dias são espelhos da vida, do cotidiano afazer de ser e estar vivos.

Uma semana depois, você veio junto comigo num outro exercício dos meus dias, onde trabalho sendo mais criança que adulto. Era uma festa para uma criança de seis anos; e você com timidez dos pequenos, fechou a cara e disse que não estava curtindo. Eu disse para você perguntar se precisava ajuda na cozinha, e você sem duvidar levantou e foi lá…

Minutos depois, me deparo com você de toca e avental, uma faca na mão cortando pães ao meio. A surpresa não era tanta, mas emoção foi crescendo. Depois passo por perto, e você com um facão bem grande, cortava queijo em fatias.

faca na mão

Com Pri, no Brincando no Pé

A sensação, deste seu pai, era rara. Algo entre alegria e saudades. Algo que crescia e me tomava por dentro, se emaranhando como as veias sob a pele, ou como os pensamentos quando ficam livres, e a gente consegue vê-los, se tornando reais, diante do olhar numa espécie de realidade fora da realidade.

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Você estava focado, apenas fazendo o que a Priscila te pedia, na ordem justa para que as coisas na cozinha dessem certo. Às vezes eu passava perto, e eu escutava dela “Benja, vamos descansar um pouco” e de você a fria negativa, de quem queria que aquilo bem terminasse, por sua própria vontade, justo quando acabara a encomenda.

E assim fomos o espelho do que somos – invertido e aos avessos – talvez sem ter a plena consciência de que estávamos mais perto um do outro. Eu feliz das minhas escolhas e você se arriscando a novas experiências.

E novamente o provérbio desta vida:  Pai é filho, (e como tantas outras vezes) viceversa.

quien seca la ropa?

Quien seca la ropa colgada es el tiempo: medio sol de luz de mañana, una llovizna súbita repentina, dos nubes que cobijan al Astro Rey al mediodía, un granizo casi eterno, está lluvia perenne de tu ausencia: no trinan los pájaros, ni me vuelan maripositas en el pecho. Quien seca la ropa es el tiempo! Cuántos meses tarda esta añoranza?