año cero pandémico

Curiosamente, la computadora borró la seña.

Raramente, yo también la olvidé y resultó que todo este año que tanto tiempo nos regaló, no solté ninguna imagen del mundo y mi amor en este ventana abierta, en esa hoja en blanco.

Un ángel distinto, me llamó, y súbitamente todo volvió a funcionar. No me arriesgo a decir las palabras, porque el silencio también ha sido un refugio de sentimientos, pero la luz insiste en atravesar la inocuidad, o al contrario desiste en iluminarnos la verdad.

Por ahora, apenas sonrío a esta bella manera de “decirme las cosas”

Crônica curta sobre o Corinthians

a primeira vez que ouvi falar de Corinthians foi em 2000. em Cuba falavam apenas de futebol europeio. mas era o primeiro mundial de clubes, então a noticia do campeão passou na tv.

sete anos depois no Brasil, deram-me uma camisa do Corinthians. no haviam passado duas horas desde que havia desembarcado em SP.

na mudança de país, Corinthians foi o primeiro degrau no processo de inserção social e identidade. muitas alegrias e vibradas emoções nos estádios, nos bares, com os amigos ou com Benjamín. Já foram doze anos desde então.

Ser pai

 

Ser pai é, além de um grande amor, uma função social. Não basta o afeto que se tenha pelos filhos, nem a família que te apóie. Ter um filho acomplexa todas as relações e cada um dos instantes. É um fato que muda o percurso da vida perenemente.

Eu sou pai há quase dez anos. Entre istos e aquilos me converti no pai que nem eu esperava. Com todos os defeitos e faltas. Com as ausências e carências, fui me virando até me tornar o pai que sou.

Nunca foi fácil. Contando com que meu pai – o homem mais próximo que tenho – não vivia por perto e que a maioria dos outros homens perto de mim, não tinham filhos; a paternidade foi construída no breu, tateando em silêncio, entre o meu ser e o ser que estava me tornando.

A separação da mãe do meu primeiro filho veio rápido. Foi inviável sustentar as nossas diferenças e escolhas, e desviar das condutas que um homem e uma mulher vão arriscando depois de um parto e um filho. Depois desse desenlace as dores se fundem numa morte infeliz. Um oco incapaz de driblar.

A paternidade tornou-se o estandarte do ego, um refúgio afastado do mundo e do sofrer. Mas é impossível fugir do momento, no qual essa pessoinha que tanto te afeta, não está a cada instante perto de si.

Era a escola prematura, com suas regras de tempo voraz e os compromissos de sorriso veloz. O espelho brilhante de outras famílias, com outras bastas felicidades. A distância obrigatória da minha família, sempre ausente – por motivos do além – e a solidão de um pai num mundo distinto, com amigos flutuantes, sem endereço fixo, nem emprego, me fizeram instaurar uma poderosa defesa do pai que queria ser.

Meu tempo era em função de ti, hijo. Ora era para gerar o que precisávamos – nem sempre deu certo, nem nunca foi suficiente, – ora era para estar com você, plenos, nós juntos. Quase nunca fiz nada sozinho, sem ti. Tardei-me entender novamente um ente singular, com desejos e medos, não fossem os teus ou nossos.

Depois, com as primaveras, teve quem não poupou presença para te cuidar, num abraço esticado desde o amor por nos. Imensas mulheres deixaram a marca nestes anos, de cuidados e afetos, para acompanhar o carinho que tinham por nos. E foi assim que dilapidei a paternidade apenas masculina, num equilíbrio energético, acompanhados do amor maternal, convertidos então num amor familiar.

Teria sido terrível, não fossem esses amares, este pai que eu sou. Cheio de mágoas e regras, exigente e sem paciência, fui ungido no intuitivo jeito materno de ser, do qual por vias da vida eu me havia privado. Isso eu agradeço infinitamente a cada um, dos amores, que foram – e ainda são.

Daí que a vida me presenteia uma filha – mesmo que ela ainda não pisou aqui, ela já sorri para nos (Nina América, já chegou) . O pai que eu sou se desdobra e se desconhece. O que será que virará, este senhor que pensa e reflete, sobre ser pai? Qual será a canção de ninar? Qual o sorriso cansado depois destas noites que virão? Como será o amor, vestido de amigos e festas, que abraçará está novo homem refeito em pai? Errarei novamente, creditando somente em mim? Será um perfeito equilíbrio, o paterno se equilibrando ao materno?

Novas reflexões porém já me abordam, disfarçadas de outros deuses. As pessoas por perto, eu diria amigos – incrivelmente maioria mulheres – se espantam com esse fato que se aproxima. Quase sempre se esboça um perigo no sorriso, como de que a vida já era curta em demasia e agora, se encurta muito mais. A verdade é que para as pessoas que ainda não tem filhos, tê-los é um perigo à autonomia, um risco contra a solidão e um aumento excessivo dos compromissos. E na verdade, não erram, porém é o fato iminente que um ser que virá encarnar nesta vida é apenas o desafio de se tornar mais humano, e obviamente menos egoísta.

A questão sempre beira o conflito de como compartir tantos novos afazeres e exigências sociais diante do caos social que vivemos. Ser íntegro e parceiro. Ser e fazer acontecer. Agora somos mais. E mais é sempre melhor.

Este é um desses versos sem fim. Uma daquelas poesias que não tem fins. Em breve, voltaremos a pensar e repensar sobre, o que em fim, tem sido o existir para mim. Esta vida gigante, de vocês, meus filhos, de nós.

uma crônica literaria (de mim)

Eu nunca fui um bom leitor. Sempre me pareceu mais atrativa a rua, com o perigo dos carros passando entre nós, as crianças, na hora da bola e com a noite fechando mais um dia de vida pueril. Na minha casa não havia nenhuma tendência acadêmica, nem muitos livros. Isso sim, foi crescido numa família que se juntava para contar as façanhas de épocas anteriores de festanças dos meus pais e tios, além de tantas outras anedotas de outras épocas anteriores.

Anos depois, nas minhas primeiras andanças escriturais em círculos literários percebi o quanto eu era diferente com meus colegas, pois quase todos haviam devorado romances e poesias com muita mais vontade e dedicação que eu.

Jaad, quem foi meu primeiro mentor e mestre, deu-me uma bronca, e me mandou ler sem parar o quanto eu encontrasse nos meus estantes. Aliás a chamada sucedia depois que ele lera um par de contos meus, assegurando que era impossível que eu não houvesse lido, até então, nenhum romance.

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Éramos tão xõvens, em Centro de Formación Literaria Onelio Jorge Cardoso, La Habana, Cuba

Eu não mentia, Jaad. De fato nunca antes havia me atrevido a ler mais do que alguns poucos contos de Poe e alguns outros Tchéjov, acho. assim fui eu, arriscando com minhas próprias palavras descrever aquelas sensações que pela pele e olhos me invadiam sobre o mundo que eu me inventava.

Mas eu sentia uma inveja, calejada em silêncios, quando em conversas plurais entre amigos escritores, eu não conseguia aportar meus matizes sobre obras altamente qualificadas e obviamente sagradas para o mundo literário. Assentia ou sorria, mas jamais falava. Preferia ir-me a outro canto, espernear alcoóis e músicas coloridas entre aqueles que mais que se gabar de cultos, brincávamos de boêmios empedernidos.

A loucura funcionava, e uma hora, os que ostentavam conhecimento e vocabulário, partiam para suas casas enquanto os bêbados continuávamos inventando mundos poéticos sem verbos nem sentenças.

Mais os livros foram me pegando de surpresa. Romances volumosos e opulentos me abraçavam sem me deixar dormir. e entre festas e viagens alguns exemplares me ensinaram outra forma de escrever. Assim, num desejo voraz de ter, fui juntando livros que gostaria de ler, outros que seria importante ler, mas nunca leria e outros que mesmo que não me interessassem ficariam para mim.

No meio dos meus vinte e tantos, uma amiga italiana, neurologista, muito sabia, agarrou minha cabeça e disse: eu entendo sua hiperatividade. Eu não havia perguntado nada. Era uma voz aquosa com sotaque europeu trazendo à tona a discrição exata de como o formato da minha testa influenciava na minha pouca concentração para tarefas como a leitura. é por isso, ela disse. Assim foi que entendi como era mais simples para eu ler numa viagem de ônibus ou simples, não ler.

Com o tempo, fui dando minha interpretação aos fatos e conciliando melhor, comigo, o meu devir de escritor. Eu não queria saber como os outros escreviam, de fato não me interessava. Gostava apenas do meu mundo de palavras e experiências, solitárias e egóicas.

(reviravolta)

Tempos depois, já morando no Brasil, tendo abandonado o circuito de escritores promissores da minha geração em Cuba, aprendido uma nova língua – este português autodidata -, com um par de livros publicados, e outras menciones em coletâneas, e sem ainda poder me firmar a produzir na minha nova língua, deu-me por brincar contigo, Benja, de fazer livros.

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Brincando de vender livros no Brincando!

Era uma tarde cinzenta lá no litoral norte de São Paulo. Um calor voraz atacava frestas e janelas e pernilongos dançavam no ritmo do ventilador de teto, quando eu disse a você vamos “fazer” um libro.  Foram cinco folhas sulfite, brancas, dobradas ao meio e grampeadas. Eu te pedi um título, você deu. Depois pedi para desenhar a capa, você desenhou. Na sequência, fomos escrevendo a história – você ditava e eu escrevia – logo você acompanhava com uma ilustração, assim até terminar o livro. Foram vários que fizemos. Muitos!

Hoje em dia, hijo, essa rareza de viver. Você quando pede algo, é para comprar um gibi, e devora estes com uma dedicação incrível. Ando pela casa, e encontro eles abertos, esperando por você. Quando decides me dar um presente com sua mãe, é quase sempre um livro.

As vezes é assim… Eu não podia ler, não queria. Mas você está ai, para me tornar outro eu. Este aqui.

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Vendendo livros numa feira na Praça Elis Regina, São Paulo, Brasil

 

de outras, d´outras e outras.

O Sol girou mais uma vez ao redor do meu ventre. Queimamos assim, mais um horizonte na janela do tempo, e eu, mais inerte a luz avermelhada da sua morte, consenti ser amante da noite, e bastardo do rei Astro.

Havia presenciado a verdade diante de mim. Uma insólita solidão das palavras de frente aos olhos do mundo: o humano é invenção do fracasso.

Eu sou um humano. Havia fracassado em toda peregrinação: o que eu amava era o devir de ser gente. Teimando em compreender que a luz é do tamanho da sombra. Que olhar a vida era suficiente para percebe-la. Que somos a sós, sempre sozinhos, nessa caminhada sem rumo.

O sol deitou seu corpo sobre minhas costas. Minhas mãos floresciam no tato das coisas: a grama molhada, a terra rajada, a água do mar, a pele esticada à beira dos anos, a morte dos outros sem adeuses.

Havia sido um ano infinito, nesse limiar entre ser e existir. Fundo no passar de cada um destes dias. Um ano longo, quase vazio no oco à esperança. As assas de cada escolha, sutilmente nascidas de outras escolhas, e d´outras e outras.

Um olhar de frente a outros olhos, na imensa solidão de outro existir.

Um silêncio. Outra morte.

O sol cabisbaixo, sob lágrimas de sobreviver.

Ano zero: apanhado de memorias sutis

1

Quien seca la ropa colgada es el tiempo: medio sol de luz de mañana, una llovizna súbita repentina, dos nubes que cobijan al Astro Rey al mediodía, un granizo casi eterno, está lluvia perenne de tu ausencia: no trinan los pájaros, ni me vuelan maripositas en el pecho. Quien seca la ropa es el tiempo! Cuántos meses tarda esta añoranza?

2

quando pienso, y siento, que el olvido es la única manera de saberte feliz, me dan una ganas inmensas de llorar. saber que hubo algo que era nuestro en otro tiempo, saber y sentir, desanubiar el líquido y el verso. que no hay razón para lo que no es. el grano germina. la flor marchita. la noche amanece. y el tiempo acaba. saber que no puedo hacer nada con aquello que no es mío, lo que no me pertenece, y ni escoger el día del adiós tardío. saber me
resigna del perdón. sentir me permite esta razón.

0

 tudo que vivi esqueci… (você) me ajude viver este instante que ainda vivo… haverá tempo para (te) esquecer num futuro que também não lembro!

 

 

Nós outros Milton.

… ali estava o espelho. Nele, a sombra de mim contra o reflexo. Milton brincava com a luz detrás de meus cabelos, fazendo sombra sobre o eu no espelho, uma segunda sombra, e no espelho, apenas dele: o reflexo.

Nos meus olhos, no espelho, eu vi ele. Minha sombra abraçava seu reflexo, e a sombra dele fundia-se no meu convexo.

“Quem é você?” perguntei-me olhando para ele, nos meus olhos meus. Intui um eco como de quem está ausente. Nele, aquela ausência de se fazer presente. Em mim, como de quem quer desaparecer para sempre.

“A vida é feita por aquilo que sentimos na pele,… ” era a voz de Milton, ecoando nas salas vazias sem móveis nem livros de uma casa recém ocupada. Lá fora, o mundo era feito de pessoas que trabalhavam incessantes e omissas, sem olhar para a poesia que era estar vivos. Apenas respiravam como recurso da sobrevivência “ … e aquilo que escutamos e que tocamos”.

Nem eu, nem Milton existiamos para esse tipo de gente. Éramos coisa de outro século ou até de outra espécie: ler um livro sentado na grama, cheirar discreto o ventre de uma flor, esperar alguns minutos pelo pôr deste sol.

Pela janela dava para acompanhar os passos apressados de uma cidade que nascia de noite. Soluços rangidos, a língua sempre oculta, a boca torta, e os olhos fechados. Minha sombra se esticou no asfalto, jorrando umas listras escuras na luz alaranjada.

Milton apareceu por perto, trás minha forma encolhida na borda daquele abismo. Soube primeiro porque vi sua sombra jogada no centro do meu corpo alaranjado. Falei para Milton, no vácuo da escuta, sem desdém à beira do espelho da calçada: “Quem é você?” preguntei-lhe ao Milton. Minha voz era o eco daquele silêncio com que ele me presenteava sempre que eu o interpelava.

Uma menina deteve-se. Levantou o olhar, nos vendo. “Nós somos o que os outros…” Milton me abraçava, e eu dentro dos braços dele, também o agarrava, “… de nós, desconhecem”. Eu sorri para ela. Milton se desenroscou. Ela ia, acho que sorrindo.

O sol se apagou na noite. Minha sombra desapareceu da calçada. O eco da casa deshabitada gritava. “Milton…” eu disse garguejando, colocando os dois pés no chão “… não entendi isso direito.”

 

flagra

o que mais eu gosto de roubar são livros. um desejo intenso e incontrólavel na frente de um estante. a certeza de estar pegando de outros escritores, outras poetas, cronistas de tantas épocas, os melhores romancistas. roubar deles, e dos donos dos livros.

minha única biblioteca, a que deixei na ilha, era praticamente de livros ilícitos. levados sem culpa de livrarias, feiras e bibliotecas.

se bobear, eu já peguei um exemplar seu. roubado mesmo dentre seus livros, por uma luxuria pueril de roubar os meus mestres. bati o olho, pus na bolsa, sumiu o livro.

a única vez que fui pego fazendo isso foi na feria do livro de la habana, em 2004. acho. eu estava lançando meu primeiro livro de contos “¿cómo le crecen los senos a las niñas?” e esses dias da feria eram dias de encontrar amigos e procurar livros para comprar. eu estava acompanhado e perambulava pelas imensas salas da “fortaleza de la cabaña” à procura de bons preços.

uma hora me deparo com meu livro, e agarro dois. um eu compraria. e outro não. tudo correu ao certo, pagamos e saímos ao sol daquelas praças coloniais que batem de frente com a bahia de la habana. a amiga que me acompanhava – não lembro agora quem era – e eu caminhávamos conversando. ela não sabia que eu havia pego o livro, que era uma das minhas primícias: não deixar ninguém saber daquele instante que eu pegava. Quando já distantes da saída, eu puxo o livro do bolso da calça e coloco dentre os livros que havia comprado. Dez segundos depois, sinto um grito e um puxão de braço, de um velhinho que estava na porta, onde se pagavam na saída os livros.

ele me havia seguido por duzentos metros e durante cinco minutos, para me pegar no flagrante.

de nada adiantou, que eu demonstrasse que não fazia sentido eu roubar meu próprio livro, na semana do lançamento deste, na féria mais importante do livro de cuba. ele fez questão de me levar a delegacia de plantão, e me apresentar como ladra, e logo depois ser punido com uma multa. justamente.

1980: o ano da sina

1980 foi o ano que eu nasci. era o ano da mais alta luz de aquele governo que se chamava revolucionário. estávamos em paz com a urss, polonia, hungria, yugoslavia, alemania oriental e todos esses países que hoje não existem mais. nem seus líderes. nem suas ideologias. éramos um país de pobres ricos, diziam. tudo igual para todos. pouco, bem pouco para todos, menos para aqueles que desde a varanda ideologica nos comandavam. era uma época que ser diferente era delito: ideológica, sexual, políticamente.

esse ano minha mãe me carregava. e ainda, sonhava com ser feliz naquele país que tudo prometia. mas os conflitos eram muito bruscos e a felicidade e a liberdade eram restritas. meu pai anunciou que partiria, com ela, e comigo. todos juntos, mas minha mãe temia a nova vida. o trajeto abjeto do mar em travessia. ela se negou, por ela e pela minha vida, e meu pai, aceitou a letania. assim eu nasceria do lado da ilha.
era o ano 1980, o ano luz de nossa família. todos do mesmo lado da terra e do afeto.

não carrego essa sina, apenas o possível caminho que nunca existira. o caminho de viajeiro sem destinos, de um lado o mar, do outro a possível despedida.

gracias los puros Juana Eva Sanchez Terrero e Jose Ramon Menendez por el destino decidido. Luz!

uns avessos, ao acaso nosso

se a vida
fosse contadas com vitórias
todos seriamos heróis
em livros de histórias.
 
se fossemos, cada um,
lembrados por conquistas
talvez hoje seriamos todos
chefes ao frente de um império.
 
se a vida
fosse registrada pelo luxo
provável que todos fóssemos
grandes ricos da história humana.
 
mas e se a vida fosse contada por fracassos?
se cantássemos as derrotas?
se registrássemos a pobreza?
se o que importasse fosse a falta, a morte, a feiura?
o que seria, de nós, espécie humana?