rascunhos à beira-mar

 

à espera da entrada da gruta

só o caminho do tempo

executa

 

 

 

 

todo destino me parece parcial

ou fardado

iludido.

 

 

 

 

no olho no fim da serpente

o escuro do sempre

vida rente

 

 

 

o som de quantas lágrimas de chuva

fazem sinfonia

num mar em calma?

 

 

 

 

sob o teto do mundo exerciam sua humanidade

um homem e uma mulher

na aventura do amor humano

numa praia deserta

solitários

 

 

 

 

o amar veste formas do materno

rainha o carinho

o incesto

alimenta o ego do eterno

é selvageria

antropofagia sensorial

é água no sol

(o sal no mel)

 

 

À sombra de Milton

 

Milton caminha entre desconhecidos quaisquer. Em silêncio, passa sem chamar a atenção. Ninguém o olha.

Tampouco, ninguém olha para mim.

“Entre os outros…”  e ele aponta ao chão, à sombra amorfa de nós “nem mesmo nosso breu fica parecido”.

Diante daqueles, formávamos incríveis figuras que desenhavam outras distintas maneiras de ser, e nossas linhas, eram inimagináveis e imprevistas.

Milton continuou a brincar de descobrir outras imagens “olh´aqui, não parece muito com um camaleão?” que ele insistia em me fazer ver “veja bem, não é mesmo um deus nórdico?”

Eu assentia ou negava apenas para não deixá-lo falar sozinho.

“Nossa, vendo aquilo que belo…” diz-me surpreso, ao ver minha nova sombra misturada ao corpo singelo de uma moça que atravessou entre nós.

Depois, Milton se afastou. Continuou andar entre outras tantas pessoas que passavam por ali. “Uuuh, agora foi quase…” gritou-me depois de tentar apagar nos outros, o gesto discreto de nós.

A noite, enfim, diluiu a frustrante agonia de uma sombra esticada sobre o concreto vertical de um prédio. Ele firmou o olhar no último laranja acendido no seu rosto.

Eu era a sombra perfeita que ele precisava, e que também, desconhecia.

O novo ano de Milton

Pelas frestas das janelas, o murmúrio de alegrias alheias inundava o neutro sorriso do Milton. Ele degustava um cigarro, um som qualquer na rádio, e no copo esquentava uma cerveja. O olhar fitado numa sombra, avesso impresso da árvore, lá fora no quintal de casa, e agora invadindo a parede de dentro.

“Quer fazer um brinde?” pergunto-lhe a Milton, alçando meu copo gelado, tentando celebrar alguma alegria nossa. Eu sorria da cumplicidade do encontro.

Eu e ele à sombra da árvore: afora, avessa; aqui dentro, escura.

“Um brinde…” cuspe Milton, e engole a cerveja dele, “… nos merece mesmo isso” e levanta o copo em direção de mim, vazio.

“Muita saúde…” eu aproximo o meu, “… para nos” e batendo os copos, fito meu olhar no dele, e no mesmo instante, escutamos a explosão de um fogo de artifício e o copo cai da minha mão, fazendo aquele barulho úmido no chão de vidro quebrado.

“A Terra dando mais um giro entorno do Sol…” Milton murmura enquanto eu cato os cacos; ele dá um gole direto da garrafa de cerveja. “… e nos dando mais uma volta entorno de nos”.

Estouraram mais uns fogos em seqüência. Uns cachorros latiam. A alegria alheia transbordava dentro, as avessas da sombra da gente. Rara essa maneira de comemorar o fim de algo na linha infinita do tempo, nessa rara infinita forma de nos.

(Pequena serenata diurna)[para falar da dor exaustiva da] Solidão Interior

A cada instante algum sorriso me devolve o sol do meu olhar: um brilho meu do qual  desconfio a cada instante, de mim.

Em nós persiste a vontade comum de estarmos no lugar exato de existir; e nele, por todas sermos feliz, incluso quando não é possível, quando não queremos, quando não conseguimos.

Assim se vão dias inteiros de alguma breve satisfação, de alguma efêmera realização, de algum ínfimo amor fora de nós.

Estamos felizes?

Assim que emana o escuro da retina interior, o soluço do silêncio, a paz infinita da morte ou a imensa gratidão do amor próprio de si surge o vazio de vida que vivemos por pretender, por agradar, por euforias, por sutis belezas, por palavras de agrado.

Eu escuto um silêncio nas vozes: é o grito da dor da solidão, que apenas dilui-se no abraço de um sonho inédito, no olhar próprio no espelho (prenda a respiração, conte em silêncio hasta cem, se conseguir chegue até os mil), na morte que espero, sem saber, sem querer, sem temer.

Eu tenho saudades de morrer… dentre de mim.

Olhares de sempre

Era meio da tarde. Sob o asfalto, nos túneis do metrô, o ar aclimatado deixava num raro conforto o ambiente, apesar do sol que atravessava os vidros da estação Butantã.

As pessoas esvaziaram os vagões, e enfileiravam-se  em torno a escada rodante, que ia em direção à superfície.

Do outro lado do tumulto, uma menina olhou-me. Eu, deste lado, a olhei. Por uns instantes prendemos, fixado, o olhar de um no outro.

Éramos desconhecidos, e no olhar, de sempre e agora, nos fizemos presentes.

Nos olhos, as almas conectam. A essência se projeta em forma de luz invisível que somente é captada no olhar, até então alheio, do outro.

Ela acha que me conhece. Eu tenho certeza que não. Ela duvida, tem quase certeza. Eu brinco que a conheço de outra vida, há quinhentos anos atrás.

Perceba uma criança qualquer, na rua. Olhe aos olhos da criança. Se o olhar coincidir com dela, muito provavelmente, enquanto ela caminha se afastando, ela tornará várias vezes, tentando conectar novamente com você.

Ela agora coincide que antes não me havia visto. Diz que eu lhe lembro alguém. Um primo. A gente sorri, nessa alegria de sê reconhecer no outro.

No olhar de fora, a gente se reconhece. Vê-se o dentro de nós, num simples brilho: é a alma, ou eu. Às vezes, pode-se confundir com amor passional, aquele amor-a-primeira vista. As vezes, recebe-se o grito de um ódio, lá dentro de nós, e sem mais, você despreza uma pessoa comum, qualquer, sem saber porque.

Ela segue escada arriba. Eu me despeço até o próximo encontro – se houver. Mas ela fica em mim, vibrando a freqüência dela, comum cotidiana, neste instante conectado com o sempre. Eu fico, na dela.

E assim que vamos todos…. conectados. Conectando-se!

Olhe aos Olhos.

Medida Exata

“Benja vamos fazer alguma coisa?” a tarde se antecipava num cinza chuvoso. Lá fora São Paulo seguia no seu sem-fim cotidiano. Você topou e “o que será que faremos, pai?”. Na minha duvida, passei a responsa para você e tu, “vamos brincar com as ferramentas” você concluiu.

Te expliquei para que servia cada uma, as dividimos por grupo.

“Essa daqui… ” era a régua para medir “para que que serve, pai?”

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Medindo nuances

 

“Vou te mostrar…” eu disse “como que faz com isso”. Como colocava sobre a superfície. A diferença entre centímetros e polegadas. Como fazer a marquinha do lápis, quando a medida é maior que a régua.

Você escutava, e repetia os meus conselhos, na brincadeira de fazer as medidas de uma cadeira plástica, que como modelo, serviria para medir e reprisá-la no papel com as medidas certas.

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Medida certa

Era confusa a numeração, o cálculo da medida, e o local onde medir. Depois, era o momento de escrever os dados: a medida certa.

O processo continuava pois a cadeira tinha três peças, e três eram as medidas para pegar.

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Outras (repetidas) medições

Você anotava com letras firmes, sobre o traço retilíneo que demarcava e enunciava a medição: uma sorte de exatidão e precisão.

Eu perguntei onde faltava medir, e minha surpresa esvaziou-se pois você sabia exatamente onde colocar a régua, o lápis e a disposição.

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Medida externa

Eram detalhes finais da terceira dimensão. Você media o largo e ancho e altura: o volumem do afeto preencheria as quinas, os defeitos seriam o alicerce do próximo, e a presença  pilar do próximo devir.

Você surpreendia-se com os cálculos e os traços dando certo

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Planos do exato

Ao final, estavam os planos da cadeira, prontos: a visível cadeira representada em três folhas, com as medidas cuidadosamente medidas.

Você me pediu para pendurar na parede; e achamos lugar lá no alto. Você quis colocar as folhas por si próprio, um sobre a outra, com ajuda da cadeira, e depois com ajuda de mim: sobre os ombros.

Assim ficou: um pouquinho do certo, na medidas daquele esforço seu.

Fidel: comandante ou ditador?

… toda memória merece uma lágrima e um sorriso

 

Eu nasci, e ele estava ali; provavelmente presidindo um discurso da fé patriótica versus o medo do ataque inimigo. Era o ano de 1980. Anos depois, nos primeiros agostos da minha infância, lembro-me vagamente de uma imagem colada, em cores gastos de chuva, na porta de casa; um adesivo do líder verde-oliva, perto do olho mágico que brilhava na calçada.

Hoje esquecido na larga memória, as primeiras vezes do nome dito, no clarão dos ensinos escolares, do herói militar, seguidor dos ideais do Apóstol – nome que se dá José Martí, principal pensador, poeta e intelectual cubano neocolonial – , contra à tirania militar nos anos 50, o salvador, triunfante, o quase agradecimento pátrio-paterno, por ter crescido no seio da minha – e de todas as outras – família, merecedores do processo libertador, emancipador de uma nação, da minha ilha, e por conseqüência histórica e geográfica, o também devir de um continente e de um processo político regional. Ele era essa rara espécie de deus que governa os dias e os destinos, como os Deuses já guiaram os romanos, os gregos e ora,  guiam tantos os todos humanos que sobre a Terra sobrevivem. O Deus nas paredes do meu país levava o nome de Fidel.

Na escola havia um retrato na direção e outra na secretária. No mural de informações sempre uma das frases das tantas proferidas. Murais de rua pintavam seu rosto barbado. Na televisão, era garantida a íntegra de seus discursos, a repercussão das decisões da Revolução que ele encabeçava, no âmbito de nossa ilha e no mundo afora.

Nas noticias e no governo, Fidel estava em todas as conquistas revolucionárias, como idealizador e condutor. Nas ruas, era também responsável por tudo quanto era de ruim na sociedade, numa clara isenção da responsabilidade pessoal dos indivíduos.

Nas casas, no recôndito do silêncio familiar, entre uma refeição e outra, entre um apagão e o próximo, entre as filas do bairro, entre as notícias da televisão estatal, nos ônibus escassos e muito baratos, nas comemorações, praças públicas, eventos políticos, nos bastidores da sociedade que aceitamos – as várias gerações de cubanos– havia uma sensação de gratidão e decepção pelo grande pai Castro.

Era dele, a responsabilidade pelos logros sociais e os dogmas ideológicos na educação. Pelas medalhas nas Olimpíadas e pelas deserções nos Pan. Dele eram os destinos dos médicos em países amigos e pela falta destes no posto do prédio onde eu morava. Eram dele, os que estudavam nos países do leste europeu, e os que morriam em balsa tentando chegar aos estados norte-americanos. Eram dele, os refugiados das ditaduras latino-americanas e dele, os cubanos exilados políticos em Miami.

Eram as crianças sem fome, os adolescentes sem sonhos, um povo assalariado, uma diáspora raivosa, alguns intelectuais do terrunho e outros tantos já emigrados, alguns poucos com tudo bem arrumado em terras e imóveis, a ausência de milícias ou paramilitares, os militares no comando, zero narcotráfico, uma imprensa do governo, um bloqueio dos norte-americanos, todos os países não-alinhados, sempre as ótimas alianças políticas, e ele, grande líder: El Comandante.

Desde pequenos ouvi falar do fim daquela dinastia – há palavras para tudo! –, e com isso brincávamos naquela adolescência tardia da crises dos noventa, entre conversas quase silenciosas nos fundos das casas, ninguém se acostumava com o desacerto do insosso futuro que nos esperava, éramos o povo-à-deriva, o real maravilhoso da invenção do que ainda não era e nem seria. Acho que por lá, muitos  desejavam aquele final do deus humano: “o que será de nós, o dia que Fidel morrer?” ou na aquela forma mais intuitivo e primitivo desejo da morte, em profundo medo da nossa própria morte? essa mediocridade quando se detém o poder das próprias e justas ações individuais, em detrimento do poder de um governo, e suas leis.

Todo ano que virava, a duvida vinha: “será este ano que el Fifo vai morrer? ” Era um desejo de ver a monotonia mudar de rotina, não por vontade própria, nem ação popular, não por proposta da força de um povo, o meu; ainda bem menos, ou pior; no comum da morte de um ser, neste caso o mesmo poder em pessoa, um rei, um herói, um soldado, um comandante, um ditador, um militar, um pensador, um manipulador, um estadista?

No ano 2000 ou pouco mais – no tempo da minha memória-vitral colorida e orquestrada– o Fidel, havia ido re-inaugurar uma escola na esquina de casa onde eu morava. Foi a vez que mais próximo estive daquele homem: o bairro estava mobilizado para a ocasião, carros policiais circundavam a região, a avenida foi fechada, a multidão fechava um círculo entorno a escola. Cheguei lá, lembro que por impulso da minha irmã ou mãe, não sei bem: lá estava descendo, vestido de verde, alto e imponente, cumprimentava e despedia-se acenando adeuses – a los dioses? Em mim, lembro da energia que vibrou ao meu redor e me contagiou, era um calafrio natural diante da presença humana de um deus.

<< Fidel Castro morreu >> simples assim. Pessoas morrem, não era deus nenhum. O mundo se manifestou, e depois obviamente se dividiu. Os cubanos, a maioria, se dividiram: COMANDANTE ou DITADOR?

Pensei em meus amigos que ainda moram lá – Cló, tú? Tan triste febril, tan festeira –  haveriam comemorado a morte, gritando trás janelas fechadas com medo de ser por alguém recriminado? Minha mãe, meu pai: haveriam chorado a paz de todos estes quase sessenta anos, os anos doados, os plantões cumpridos, o serviço militar, as horas voluntárias? Minha sobrinha, que hoje ainda na escola estuda que o Fidel fez a Revolução que garante ela estudar numa escola pública, a mesma escola onde eu vira de perto ao Fidel;  como seria para ela presenciar a morte de um deus de suas páginas. E minha mais nova sobrinha, menos de um mês de nascida, o que será que ela saberá deste dia, que lhe contarão nos livros de História, ou nos mesmos, a família.

Eu tive um dia desses na rua: sem celular, sem jornal, sem televisão. Não acompanhei os debates entre as hordas  nas redes sociais. Eu – neste minuto, três dias depois dessa morte – ainda não me escrevi uma palavra com minha família na ilha. Eu não senti nada especial naquele instante sobre a morte daquele ser. Não havia mágoas algumas. Também nenhuma gratidão. Pensei que talvez um dia, meu filho me perguntará como era aquele homem, ao final: “que o tempo passa, e tudo se esquece, ninguém ficará para memória ulterior”.

Ordem e respeito (ou o silêncio que gritou por nós)

Ontem caminhávamos, hijo, um perto do outro. Atravessando as ruas e as calçadas do bairro onde moras. Depois da escola, o almoço na avó e a piscina; íamos em direção ao metrô para irmos ao dentista. Acostumado andar sozinho, porém perto, pelo horário pedi para irmos de mãos dadas.

Eu, desse gesto costumeiro, citadino e humano, não sou adepto. Minha mão sua, minhas pernas tremem, mudam o passo, até às vezes dou uns pulos. Eu de mãos dadas, não gosto desde que era adolescente.

Você, ao contrário, não queria; apesar de que naquela hora, as pessoas andam muito depressa, com aquela vontade insana de voltar para casa, apenas olham para frente, a mente alheia, pensando em tortas e urgentes necessidades.

Você fechou a cara. Fez bico. Ensaiou um pranto.

Eu argumentei ao perigo. Aleguei à pressa. Exigi respeito.

As pessoas que passavam então olharam. Um menino veio se aproximar, dizer alguma coisa. Eu não deixei, pedindo que me deixasse falar com você. Um segundo depois, havia dois policiais militares, pediram meus documentos. Eu pedi, para continuar falar com você. O policial exigiu respeito cidadão. Eu retruquei pedindo meu direito paterno.

“Você me dá seu documento” o fardado, alto, armado, vociferava.

“Posso falar com meu filho?” respondi, com uma calma fria, que por dentro queimava.

“Não, não pode!” ele era a ordem, “eu preciso terminar de falar com meu filho” e eu um cidadão.

Ele alegou à diferencia cultural, acredito que sentiu um sotaque, e diz que eu devia obedecê-lo. O tom era áspero.

Eu perguntei se ele era pai. Ele era. Pedi para que ele me compreende-se enquanto pai, e que me deixasse enfim, terminar minha conversa com meu filho. Eu fui enfático.

Ele disse “você tem um minuto”.

Daí eu te lembrei do porque que eu queria que você fosse de mãos dadas, lembrei da pressa, o dentista, e ressaltei daquilo que repito “não gosto de estar chamando atenção” (algo que se opõem a minha extrovertida figura em âmbito amigo-familiar).

Você escutava em silêncio. No olhar pingava uma raiva da birra entre nós, uma vergonha daquele momento, o medo por aqueles policiais ao redor. Seu rosto era gigante, e me olhava firme, no fundo dos meus olhos.

Puxei a carteira. Dei meu documento e “este é o documento do meu filho” eu disse.

Ele conferira. Explicou que alguém tinha ouvido nos conversando, e haviam achado estranho (sim eu de cabelo crescido para cima, gadelha mundana dos meus pensamentos, o preto cimarrón da preta da minha avó, minhas roupas quaisquer, com qualquer um dos meus sapatos, as meias cruzadas, mochila rasgada e o japamala, e você louro, bonito garotão, de sobrenome judeu, e olhos mel, andando comigo num bairro burgués… eu sei o que eles achavam estranho).

Eu falei que era que não tinha nada o que fazer com a vida deles.

O policial disse que eu entenderia se fosse alguém tentando levar meu filho.

Eu falei que aquilo era o dever dele, e o meu, educar você.

Ele perguntou se estava tudo bem com você. Você assentiu, sem falar. Ele perguntou se sabia onde estava indo? Você assentiu, ainda sem falar, com os lábios apertados, numa rara mistura de bravura e desdém.

Eu disse que você podia falar. Você disse então que íamos ao dentista

O policial então devolveu meus documentos.

Nós, prendemos nossas mãos, e fomos a pé. Juntos.

Na esquina, antes de atravessar a próxima rua, me detive de novo para conversar. E te falei, seco, e firme, olhando aos olhos aquilo que te falei: o que foi, isso sim, fica entre nós dois!

O mundo aos pés

Abriu as pernas… e abriu-se o mundo.

O último continente afundou na lama.

A chuva era agridoce nos seus lábios sedentos

O olho fixou-me na estaca do tempo.

Ela sumiu nos seus dentres

espirais sinais

sinuosos contornos do esbelto

magnânimas coxas

pingentes, mamilos dourados

brilhantes mordiscos ao sul desta pele

cupim do meu ventre

larva do fim d´umbigo.

Ela emanava em seu grito

sinfônicas vozes

elo do orgasmo

secretas deidades que ela vivia…

Pediu pelo são herdeiro

daquele encontro

do abraço da mão-sobre-mão

das pernas-entre-as-pernas

o ser-dentro-fora-do-ser.

A boca aberta

gemente

o fogo na brasa do peito

pagã das palavras

feiticeira do beijo

artesã do barro molhado

modelando com os pés deste verso.

Ela curvada sob a sombra devota da Esfinge

Eu era o totem por trás do horizonte

do mar de seus gozos

e não havia fim destes cernes

morte do conhecimento

belo animal destas trevas

e estas selvas

livre e impávido

febril

destemida

bicha-sina de homens famintos

Ego breu

A beleza está com tempo esgotado

beiram as rugas

do seu agônico sorriso

pautado pelo espelhismo

da triste figura

que habita sob sua fina pele.

 

A potência da mão enfraquece

passaram-se os anos

da industria cotidiana

no afã de angariar

distâncias e pedaços

que em breve darão adeus com a memória.

 

A formosura do seus gestos quase apagam

apenas restam sombras

fragmentos de um brilho

que a cada noite escurece

intermitente cintilante

como o fôlego, o olhar, os orgasmos.

 

O vibrante do sexo tem beiradas

abismo escuro infinito

e a fome acaba

a sede esvazia-se em pingos

que a gente é só

e também esgotassem as vontades

de riscar bocas e ventres.

 

A companhia dos outros tem limites

a vida ao fim

e o treinamento viril de esta morte

as palavras não mais falam

nem o toque ao tato mais nos crispa

apenas fica o oco de estes ossos.

 

O silêncio é o propósito das palavras

o sem-fim é leito

d´um mistério de este sempre

é isto…

tudo é enfeite do verdadeiro

silente breu do ego-eu.